Senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) enviou ao USTR, em 1º de julho, documento de 86 páginas solicitando adiamento de 180 dias das tarifas de 25 % dos EUA sobre exportações brasileiras.
O pedido foi feito enquanto ele se apresenta como pré‑candidato à Presidência, alegando que as tarifas fortalecem politicamente o governo Lula.
Flávio afirma que a medida prejudica sua popularidade e busca ganhar tempo para melhorar suas intenções de voto.
O objetivo é suspender sanções que, segundo ele, afetam mais a política interna do Brasil que a economia.
A subserviência e o descolamento da realidade nacional por parte do clã Bolsonaro ganharam seu capítulo mais vergonhoso e explícito esta semana. Em uma manifestação oficial de 86 páginas enviada ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) na quarta-feira (1º), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu formalmente que o governo de Donald Trump adie por 180 dias a aplicação de novas tarifas de 25% contra exportações brasileiras. O motivo real admitido por trás do calhamaço de justificativas? Puro pânico eleitoral.
Ao se apresentar no documento como pré-candidato do PL à Presidência da República, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) confessou ao governo estrangeiro que a sanção econômica contra o próprio país, medida que ele e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, imploraram e aplaudiram publicamente por meses, transformou-se num retumbante tiro pela culatra. Diante do colapso de sua popularidade e da perda massiva de intenções de voto, Flávio agora implora por uma trégua de seis meses para tentar salvar a própria pele nas urnas.
Cálculo político da traição
No documento, o parlamentar extremista argumenta de forma cristalina que as investidas tarifárias da gestão Trump contra o Brasil não mudaram o comportamento das autoridades brasileiras. Pelo contrário: serviram para fortalecer politicamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que enquadrou as sanções norte-americanas como ataques diretos à soberania nacional.
“Pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos EUA foi mais evidente”, admite sem rodeios Flávio na carta enviada a Washington, deixando claro que sua maior preocupação não é com o prejuízo bilionário infligido aos produtores e trabalhadores brasileiros, mas sim com o prejuízo político do embate que caiu no seu colo.
Para Flávio, o tarifaço “recompensaria” o atual governo. Sua proposta de suspensão por 180 dias (extensível por mais 90) é um arranjo puramente cosmético: ele sugere empurrar o início do colapso econômico para depois do pleito presidencial. Se a oposição vencer, ele promete tentar negociar; se perder, o Brasil que arque com o retorno automático das taxas que ele pediu e apoiou.
O “Obrigado, presidente”, dito como um serviçal
O comportamento de Flávio coroa uma trajetória de vassalagem política que há muito tempo cruzou a linha do aceitável. Em julho do ano passado, quando a gestão Trump asfixiou a economia brasileira ao impor uma tarifa agressiva de 50% sobre produtos nacionais, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi às redes sociais comemorar o ataque ao aparato produtivo do seu próprio país.
“Obrigado, presidente Donald J. Trump. Espero que as autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que merecem. O Brasil não pode — e não vai — se tornar outra Venezuela, Cuba ou Nicarágua. Deus abençoe os Estados Unidos, Deus abençoe o Brasil”, escreveu Eduardo na ocasião.
A manifestação expõe o absurdo por completo: um parlamentar brasileiro agradecendo a uma potência por esfolar o setor exportador de sua pátria, referindo-se a um mandatário estrangeiro como “presidente” com a reverência devida a um chefe de Estado próprio. O presidente Lula, que montou um grupo de trabalho com diplomatas e economistas para conter os danos em quatro rodadas de negociação com os norte-americanos, já classificou os filhos de Jair Bolsonaro como legítimos “traidores da pátria”.
“Sanções cirúrgicas contra o país”
Tentando disfarçar o oportunismo eleitoral da petição, Flávio Bolsonaro listou os prejuízos que o tarifaço traria à própria economia norte-americana, que goza de superávit comercial com o Brasil, e sugeriu que, em vez de tarifas generalizadas que “punem a população”, os EUA utilizassem ferramentas como a Lei Magnitsky para aplicar sanções financeiras e restrições de visto contra autoridades brasileiras.
A despeito dos malabarismos retóricos sobre o comércio digital, que diz respeito especificamente ao PIX, além da “segurança jurídica” que recheiam as 86 páginas enviadas ao USTR, a essência do documento é uma confissão de culpa e um pedido de socorro. Ao implorar para que Trump mude o cronograma de suas agressões econômicas apenas para não prejudicar a extrema direita nas urnas, Flávio Bolsonaro carimba na própria testa a marca da insensatez e do puxa-saquismo que prioriza interesses partidários e submissão estrangeira em detrimento do povo brasileiro.