
Um editorial publicado nesta terça-feira (14) pelo jornal britânico The Guardian analisa como a ameaça de tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil reformulou como “prática comercial desleal” uma disputa que, segundo o veículo, tem no centro a tentativa brasileira de proteger sua democracia — e abriu espaço para que o bolsonarismo ganhasse palco em Washington.
Segundo o texto, o embate remonta a junho de 2025, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que plataformas de redes sociais poderiam ser responsabilizadas por publicações de usuários, obrigando empresas como X, de Elon Musk, e Meta, de Mark Zuckerberg, a remover discurso de ódio e conteúdo antidemocrático — medida tomada após a disseminação de desinformação que, segundo pesquisas citadas pelo editorial, alimentou a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro em 2023. Um mês depois da decisão do STF, Trump propôs uma tarifa de 25% sobre importações brasileiras, alegando que os juízes forçaram empresas de tecnologia americanas a retirar do ar conteúdo “político”.
O editorial destaca uma audiência realizada na semana passada na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, na qual o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e hoje candidato da oposição à Presidência — enquanto o pai cumpre pena de 27 anos de prisão —, teve a oportunidade de discursar. De acordo com o texto, Flávio atribuiu o atrito comercial ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já teve divergências públicas com Trump, e pediu que Washington adiasse a aplicação das tarifas até as eleições de outubro, sugerindo que poderia assumir o poder em breve como alternativa ao que classificou como um governo “antiamericano”.
Para o Guardian, esse pedido representou não apenas uma tentativa de evitar as tarifas, mas uma espécie de audição de Flávio Bolsonaro para se tornar o candidato brasileiro preferido de Trump. O editorial descreve o senador como menos carismático que o pai, mas alinhado ao mesmo antiesquerdismo simplista, a políticas punitivas de segurança pública e às guerras culturais de extrema direita.
O texto lembra que as pesquisas mostram Lula à frente na corrida eleitoral. Aos 80 anos, o presidente é descrito no editorial como um dos políticos mais bem-sucedidos do século, tendo trajetória que vai de operário a líder sindical e fundador de partido, com a pobreza extrema no Brasil caindo de 30 milhões de pessoas em 2002 para menos de 7 milhões atualmente. O texto também recorda que Lula governou entre 2003 e 2011 e só retornou ao poder em 2023 depois que condenações por corrupção contra ele foram anuladas pela Justiça, num cenário político descrito como altamente polarizado.
Na avaliação do editorial, o cerne da disputa está na rejeição de Trump à busca do Brasil por soberania: enquanto Lula defende o direito do país de regular a desinformação antidemocrática em seu território, Trump entenderia que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o ambiente informacional brasileiro. Outro ponto de atrito apontado é o controle da infraestrutura financeira do país — especificamente, se a América Latina pode manter um sistema de pagamentos públicos bem-sucedido fora do controle americano.
O texto cita o Pix, sistema brasileiro que permite transferências instantâneas entre pessoas, empresas e órgãos públicos, e que movimentou US$ 6,7 trilhões em 2025. Segundo o editorial, o Brasil, assim como a Índia, desenvolveu uma infraestrutura pública digital para reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por outros países e proteger o sistema doméstico de pressões externas ou sanções — driblando, na prática, operadoras como Visa e Mastercard.
O editorial também recorre à análise do economista equatoriano Andrés Arauz, ex-ministro de um governo de esquerda no Equador, para quem dados de pagamentos processados por redes ligadas aos EUA se tornam instrumentos de vigilância e pressão política, enquanto sistemas mantidos sob controle nacional podem servir de base para o desenvolvimento soberano de inteligência artificial. Na conclusão do texto, o verdadeiro incômodo de Washington não seria o protecionismo brasileiro, mas sua autonomia: ao construir um sistema de pagamentos próprio e afirmar jurisdição sobre plataformas de tecnologia americanas, o Brasil teria motivado Trump a reclassificar essa soberania como discriminação comercial — um movimento que, segundo o Guardian, encontra respaldo previsível, e preocupante, no bolsonarismo.
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