TARIFLáVIO: MICHELLE, NAUFRáGIO NAS PESQUISAS E O CONTO DE AIA DE FLáVIO BOLSONARO NA CARTA A TRUMP
Carta de Flávio Bolsonaro a Trump remete ao telegrama do embaixador dos EUA às vésperas do golpe de 1964 e revela que, após deixar madrasta Michelle de joelhos, senador quer protagonizar O Conto de Aia bolsonarista no Brasil.
Por: Plínio Teodoro Publicado: 03/07/2026 - às 09h02Atualizado: 03/07/2026 - às 09h10 | 5 min de leitura
- Flávio Bolsonaro enviou carta de 86 páginas a Donald Trump, divulgada em 2 de julho, pedindo “alívio” e propondo o adiamento do “Tariflávio” até as eleições.
- Na carta, ele admite queda nas pesquisas após críticas por machismo, misoginia e projeto autoritário, agravadas por vídeo divulgado por sua mãe, Michelle Bolsonaro.
- Pesquisas recentes indicam 39% de intenção de voto para o governo em exercício contra 29% para Flávio Bolsonaro em simulação de primeiro turno.
- O documento foi endereçado ao representante comercial dos EUA (USTR) e foi interpretado como demonstração de postura entreguista em período eleitoral.
Os estudos da consciência nos mostram que tudo aquilo que expressamos, mesmo que negativamente, povoa nossos pensamentos. Na carta enviada a Donald Trump, tornada pública na última quinta-feira (2), Flávio Bolsonaro (PL) afirma que “não vem suplicar por alívio” — “does not come to plead for relief”—, revelando o desespero dentro da pré-campanha presidencial, que o mostra derretendo nas pesquisas, pela exposição do machismo, da misoginia e de seu projeto autoritário, atrelado aos interesses dos EUA e dos grandes grupos transnacionais, que ganhou força com o vídeo-bomba da própria madrasta, Michelle Bolsonaro (PL).
Ao implorar por alívio a Trump, o filho “01” de Jair Bolsonaro expõe seu viés entreguista ao oferecer o Brasil como quintal de Trump em troca do adiamento — não da suspensão — do chamado Tariflávio até as eleições, que o faria derreter definitivamente nas pesquisas de intenção de voto, que tenta censurar no Brasil.
“As pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do governo em exercício se fortaleceu precisamente nos períodos em que a pressão tarifária dos EUA esteve mais saliente. O levantamento nacional publicado mais recentemente coloca o atual governante com 39% contra 29% do comentador [NR.: como se refere a si na carta] em uma simulação de primeiro turno, com a aprovação do governo subindo desde abril de 2026 e sua vantagem no segundo turno aumentando”, confirma o senador.
A declaração é parte do documento de 86 páginas endereçado ao Representante Comercial dos Estados Unidos, USTR na sigla em inglês. A carta é um exemplo histórico de como age a burguesia entreguista em períodos eleitorais e remete ao golpe de 1964.
Nos antecedentes do golpe militar, o então embaixador Lincoln Gordon enviou um telegrama de Brasília pedindo ao governo dos EUA medidas para fornecer armas clandestinamente e apoio com combustível aos militares golpistas liderados pelo general Castello Branco.
“Tanto eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser dado aos golpistas para ajudar a impedir um grande desastre aqui – que pode transformar o Brasil na China da década de 1960”, dizia a carta, datada de 27 de março de 1964, quatro dias antes do golpe, que levou o Brasil a mais de duas décadas de Ditadura Militar.
A carta de Gordon marca o início da chamada Operação Tio Sam, um plano de contingência militar do governo Lyndon Johnson, que incluía o envio de uma frota naval e apoio logístico para garantir a derrubada do presidente João Goulart caso houvesse resistência militar. Nada diferente dos “bombardeios à Baía de Guanabara”, suplicados por Flávio Bolsonaro a Donald Trump.
Tariflávio, ataque às mulheres e o fator Michelle: O Conto de Aia bolsonarista
Cirurgicamente, a carta de Flávio foi enviada ao governo Trump em meio ao derretimento nas pesquisas, causado primeiramente pelo elo explícito com Daniel Vorcaro, do banco Master.
Na carta, o senador trata o caso como “a maior fraude bancária da história do país” e mente ao dizer que “a investigação expôs uma teia de proximidade entre o controlador do banco e o aparato governamental”, omitindo que ele próprio e seu grupo político seriam os principais alvos da Polícia Federal, que apura ainda a transferência de cerca de 10 milhões de dólares ao fundo Havengate, administrado pelo advogado Paulo Calixto, que seria operador financeiro do clã e uma espécie de tutor da vida de playboy de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Ao áudio em que cobra Vorcaro e ao Tariflávio somou-se o fator Michelle. Com o vídeo-bomba, a madrasta expôs o lado machista e autoritário do enteado, que agora tenta estancar a sangria interna, com a debandada de cerca de 17% dos bolsonaristas, segundo a pesquisa Atlas Bloomberg, que se colocam ao lado da madrasta.
Após isolar Michelle, Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, deram um golpe no PL Mulher ao extinguir o comando nacional do movimento e impedir que Priscila Costa, pivô da guerra entre madrasta e enteado em torno do apoio a Ciro Gomes (PSDB), assumisse o posto deixado por Michelle.
O Conto de Aia bolsonarista ganhou ares de antecipação de uma realidade futura desejada pelo grupo político com a declaração de Paulo Figueiredo de que mulheres votam mal, especialmente as solteiras, por não terem um marido para serem submissas.
Cerca de 20 pontos atrás de Lula entre as mulheres, Flávio vê os recentes episódios como definitivos para enterrar as aspirações de se criar no Brasil um regime autoritário, religioso, masculinista e neofascista — ao melhor estilo Gilead, a autocracia teocrática descrita pela escritora canadense Margaret Atwood no livro que se tornou série.
Argumento central da carta, o derretimento nas pesquisas mostra que a candidatura ungida pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), da prisão, pode ser inviabilizada antes mesmo de ser oficializada pelo partido.
“Um instrumento destinado a pressionar o governo em exercício está, de forma mensurável, fortalecendo-o. Uma pesquisa mostrando o governo visado ganhando terreno no exato momento em que os Estados Unidos consideram impor tarifas ao Brasil não é uma fraqueza no argumento — é a prova dele”, diz o senador ao implorar a Trump que taxe o Brasil após as eleições.
Aos moldes do embaixador Lincoln Gordon nos antecedentes do golpe de 1964, a carta de Flávio Bolsonaro busca implantar uma nova Operação Tio Sam e é prova de sua submissão aos interesses do sistema, atualmente comandado por Donald Trump, e de um projeto de poder que sempre desejou colocar o Brasil de joelhos. Assim como o senador quer fazer com as mulheres no país.
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