- Audiências públicas do USTR em Washington, 7 de julho, analisaram proposta de tarifas de até 37,5 % sobre produtos brasileiros.
- Empresários e economistas brasileiros alegaram falta de base técnica, e técnicos americanos reconheceram a ausência de justificativa.
- Senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ), pré‑candidato à Presidência, participou das audiências, sendo criticado por Lula, que chamou sua carta ao USTR de “entreguista”.
- O segmento empresarial alerta que, se adotadas, as tarifas serão decisão política do presidente Donald Trump, independentemente dos argumentos técnicos.
As audiências públicas referente ao tarifaço dos EUA conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos(USTR) sobre a proposta de tarifas adicionais de até 37,5% sobre produtos brasileiros tiveram seu primeiro dia marcado por críticas técnicas à medida, com empresários e economistas brasileiros concluindo que até técnicos americanos reconhecem a falta de fundamento para novas taxações.
A decisão, no entanto, é amplamente vista como política, não técnica. A presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, nas audiências desta terça-feira (7), em Washington, acirrou o debate: o presidente Lula classificou a carta enviada pelo senador ao USTR como “entreguista”, e o governo brasileiro articula uma estratégia para esvaziar a narrativa do parlamentar.
Audiências nos EUA: críticas técnicas e politização da decisão
O primeiro dia de audiências públicas do USTR deixou um saldo claro para empresários e economistas brasileiros presentes em Washington: não há base técnica para a aplicação de novas tarifas sobre importações do Brasil. Segundo o balanço feito por esses representantes, até técnicos americanos demonstraram compreender a ausência de justificativa para a medida. O diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, descreveu o ambiente como mais técnico e favorável ao Brasil em comparação ao ano anterior, expressando “otimismo com moderação” diante da postura do USTR.
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Ainda assim, o segmento empresarial brasileiro é unânime em um ponto: se o tarifaço for adotado, a decisão será meramente política, tomada pelo presidente Donald Trump independentemente dos argumentos apresentados nas audiências. As falas foram majoritariamente favoráveis à posição do governo brasileiro de que uma tarifa extra de até 37,5% carece de fundamento técnico. Setores americanos como pecuária e etanol, porém, foram na contramão e defenderam as recomendações de novas taxações. Representantes de entidades empresariais e da sociedade civil de ambos os países participaram do evento, que faz parte de um processo formal de consulta pública antes de uma recomendação final do USTR.
A atuação de Flávio Bolsonaro e a reação do governo Lula
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que chegou aos Estados Unidos no último domingo (5), participa das audiências desta terça-feira (7) apresentando-se como integrante do Senado Federal e pré-candidato à Presidência da República. O senador afirma ter se reunido pessoalmente com Trump para tratar dos temas investigados pelo USTR. Sua atuação é independente e não tem relação com o Itamaraty. A expectativa de empresários brasileiros e de aliados do próprio senador é que ele corrija o rumo e defenda que Trump não aplique o tarifaço agora, abandonando a ideia inicial de deixar a decisão para depois das eleições brasileiras.
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A pressão por essa mudança de postura tem origem direta na repercussão da carta que Flávio Bolsonaro enviou ao USTR. O presidente Lula classificou o documento como “entreguista”, e a reação negativa se espalhou até entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que temem uma fala fora do tom que forneça munição eleitoral ao PT. Diante disso, o governo Lula adotará nesta terça uma estratégia para esvaziar o discurso do senador de que o governo brasileiro não quer negociar com Trump.
Assessores de Lula destacam que a equipe do presidente americano sabe que o Brasil está negociando, e classificam a narrativa de Flávio Bolsonaro como um discurso político voltado para eleitores no Brasil. O Brasil não participa oficialmente das audiências porque esse não é o espaço de negociação entre governos, mas enviou observadores ao evento.
Impactos e preocupações dos setores envolvidos no tarifaço dos EUA
Entre os empresários brasileiros, a preocupação vai além do tarifaço em si. Produtores de etanol e de açúcar estão especialmente apreensivos porque, na carta enviada ao USTR, Flávio Bolsonaro já antecipou que pode ceder nesse campo. O temor é que, em caso de vitória eleitoral, o senador venha a negociar concessões além do que seria aceitável para o setor produtivo brasileiro.
Neste primeiro dia de audiências, os depoimentos de exportadores brasileiros se concentraram em demonstrar como a decisão de tarifar adicionalmente as importações do Brasil pode ampliar custos para a indústria americana e para sua cadeia de fornecedores, com impacto direto em preços para empresas e consumidores nos próprios Estados Unidos.
O argumento encontrou eco em manifestações escritas publicadas pelo próprio USTR. Como mostrou a Fórum nesta terça-feira,Coca-Cola, Tesla e eBay recomendaram formalmente, em documentos datados de 1º de julho, que os EUA não adotem tarifas sobre produtos brasileiros, alertando para prejuízos ao fornecimento, à produção e ao comércio em solo americano. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, classificou como “arbitrária” a decisão anunciada em junho pelos EUA de aplicar o novo tarifaço após a conclusão da investigação comercial.
Toda a disputa tem como base legal a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, de 1974, que autoriza o governo americano a retaliar países cujas políticas sejam consideradas injustificadas, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio americano. As entidades participantes têm cinco dias para enviar documentos adicionais antes de o USTR elaborar sua recomendação final.

