A derrota parcial de Lula para Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições contrasta com a onda de entusiasmo latino-americano que inundou as redes sociais às vésperas do primeiro turno e cresceu ainda mais na última semana. Os brasileiros, acostumados a cantar “Soy loco por ti, América”, escutaram uma espécie de “nós é que somos loucos por ti, Brasil.” Energizados por efeitos especiais, muita MPB e um remix de hits brasileiros com ritmos afro-latinos, influencers e comunicadores da Colômbia, México, Argentina, Chile e República Dominicana postaram vídeos e mensagens sobre nosso pleito. A maioria esmagadora está gritando por Lula, não por Flávio.
Talvez seja a maior presença espontânea do campo progressista latino-americano nas eleições do Brasil desde 1988, até porque a geração Z nunca tinha vivido na pele um grau tão alto de interferência externa, liderada pela coalizão internacional de direita, na vida política do Continente. A “ola” digital apresenta conteúdos que associam a vitória de Lula à sobrevivência das democracias latino-americanas. “Parece que Lula está aspirando à presidência da América Latina”, resumiu o deputado colombiano Alejo Toro. Não é difícil entender os motivos do movimento.
A América Latina vem ocupando uma posição crítica no tabuleiro geopolítico dos Estados Unidos. Para Donald Trump, a região deve servir aos interesses de uma república cada vez mais castigada pela competitividade chinesa. Seu papel seria servir de estoque de matérias-primas e petróleo baratos para a estratégia MAGA (América Grande de novo) e para a base industrial das big techs. “A Doutrina Monroe é uma grande coisa”, disse Trump depois de invadir a Venezuela. “Mas fomos muito além dela. Agora a chamam de Doutrina Donroe.”
Washington segue a Doutrina Donroe submetendo os países da América Latina a um alinhamento de dependência por duas vias. Uma é a intervenção militar, como na Venezuela, que impôs a troca forçada do comando político do país, com sequestro do presidente e de sua esposa. A outra é a via eleitoral. Trump apoia, no discurso e na prática, candidatos da direita nas eleições latino-americanas. Embora as votações resultem de causas complexas, seus esforços renderam. Desde que assumiu a Presidência em janeiro de 2025, Trump viu a direita ganhar as sete últimas eleições presidenciais da América Latina: Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica, Peru e Colômbia. Se levar no Brasil, são 8×0.
Trump cruza tantas vezes a linha da soberania que é fácil concluir que está metendo seu dedo na vontade popular latino-americana. Seu governo coagiu ministros do STF com a Lei Magnitsky, pressionou a Suprema Corte panamenha a anular contratos de concessão de terminais portuários do Canal do Panamá a uma empresa chinesa e apoiou a recente prisão do procurador-geral da Bolívia que apertava o cerco a Fernando Cerimedo, um articulador de redes digitais globais da extrema direita, envolvido no Putsch de 8 de Janeiro, investigado por narcotráfico e acusado de tentativa de feminicídio.