
Por Leonardo Sakamoto, via UOL.
Desde que foi colocado em prisão domiciliar em caráter humanitário, Jair Bolsonaro se tornou refém de Michelle e Flávio, politicamente falando. Não sou ingênuo, ele deve se comunicar de alguma forma com correligionários. Mas, ao contrário do que acontecia na Papudinha, onde ele podia receber visitas de políticos, em casa o ex-presidente vive com grande conforto à mercê da esposa (que vive com ele) e do primogênito (que pode visitá-lo como filho e advogado).
Tudo o que ele diz e pensa passa pelo filtro de um dos dois (e, eventualmente, de Carlos Bolsonaro) que, neste exato momento, estão em uma guerra pelo sentido do bolsonarismo, disputa aberta exatamente no vácuo deixado pela condenação do patriarca por tentativa de golpe de Estado.
Do ponto de vista político, deve ser extremamente frustrante para Jair. E não adianta culpar o ministro Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal porque a prisão domiciliar foi um benefício para que ele pudesse tratar de doenças, situação que não condiz com a transformação da casa em comitê eleitoral do PL. A menos que ele esteja exagerando a respeito de sua saúde, o que poderia levá-lo de volta à penitenciária sem a possibilidade de apelar ao vitimismo.
Quando esteve preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Lula recebia visitas e dava entrevistas à imprensa. Havia regras, afinal de contas, é uma cela e não a festa da fruta. Mas as opiniões do petista circulavam sem mediação e isso o mantinha influente, mostrando-se atuante a seus aliados e seguidores. Ajudava a evitar que o campo de esquerda saltasse para o buraco da autofagia.

Na carceragem da PF no Distrito Federal e na Papudinha, Jair chegou a mover peças importantes do xadrez eleitoral, ao indicar seu filho à corrida presidencial e enquadrar o governador Tarcísio de Freitas, então favorito da oposição, para que apoiasse Flávio, entre outras ações. Agora, ficamos sabendo o que ele pensa indiretamente pelo que diz a ex-primeira-dama e o senador, que possuem seus próprios interesses.
Michelle tem ainda mais influência sobre a vida do marido em casa porque, afinal, é ela quem cuida dele e pode estar com ele 24 horas por dia, sete dias por semana. E Jair sabe disso.
Desse ponto de vista, a Glock 9mm do ex-presidente, encontrada no carro de um militar que a levou para conserto, soa como um grito de socorro — não sei se consciente ou não. Ainda mais considerando a justificativa tosca dada por ele, de que ele vive com três mulheres e precisa estar armado para se defender. Pois isso poderia tê-lo levado de volta à sua cela com 65 metros quadrados, pátio próprio para banho de sol e socialização com outros presos.
Teria menos conforto que hoje, sem dúvida, mas veria afrouxado o cativeiro político que criou para si mesmo.