Alexandre de Moraes transformou Flávio Bolsonaro em porta-voz sem porta. O ministro do Supremo Tribunal Federal suspendeu por 90 dias as visitas do senador ao pai, Jair Bolsonaro, após ele usar um encontro familiar e profissional para retirar da prisão domiciliar uma carta com conteúdo eleitoral e divulgá-la nas redes sociais. Isso estava proibido pela decisão judicial que o transferiu da Papudinha para casa por motivos de saúde.
O prazo da suspensão termina em 11 de outubro, uma semana depois do primeiro turno das eleições. Ou seja, no momento em que Flávio mais precisaria do aval cotidiano do patriarca para fechar alianças, montar palanques e administrar crises, estará proibido de conversar diretamente com ele.
Na carta, Jair declarou que o primogênito era seu porta-voz e sua escolha para a disputa presidencial. Flávio apresentou a mensagem como tentativa de impedir “falas conflituosas ou direções diferentes” no bolsonarismo. A operação, contudo, produziu o resultado contrário: em vez de unificar o grupo, aumentou o poder da sua principal adversária na guerra interna do clã, Michelle Bolsonaro.
Como vive com o marido, a ex-primeira-dama não depende de autorização periódica para saber o que Jair pensa, deseja ou teme. Está ao lado dele todos os dias, enquanto aliados, candidatos e dirigentes partidários precisam atravessar filtros judiciais e familiares. Se Flávio era o despachante político autorizado a entrar e sair da residência levando pesquisas, nomes e acordos, Michelle agora se consolida como a principal ponte entre Bolsonaro e o mundo exterior.
Não será uma mensageira neutra. Pontes políticas cobram pedágio.