
Por Leonardo Sakamoto, no Uol
Após as denúncias de que Michelle Bolsonaro foi maltratada e humilhada por ele, o senador Flávio Bolsonaro entregou desculpas do tipo “se você se sentiu ofendida”, o que transfere para a vítima a responsabilidade pela situação. Afirmou que a crise era página virada e que estava de coração aberto para a madrasta. Mas a artilharia sobre ela continuou pesada, vinda dos aliados dele no exterior, das redes sociais bolsonaristas no Brasil, em uma “guerra de versículos” com a participação de sua própria esposa.
Como disse aqui ontem, como Flávio se cala, entende-se que consente. Claro que ela tem interesses políticos e eleitorais com as denúncias que trouxe a público e busca capitalizar inclusive as reações violentas. Mas não apaga o fato de que o pré-candidato, primogênito de Jair, parece estar realizando um ataque a ela por procuração.
A ex-primeira-dama saiu ontem da direção do PL Mulher e teria desistido da campanha para o Senado se não fosse a intervenção da senadora Damares Alves e da governadora do Distrito Federal, Celina Leão. A campanha de Flávio resiste sem a ajuda dela, mas terá muita dificuldade se ela jogar contra, por exemplo, lembrando que os ataques que sofre são parecidos com aqueles pelos quais eleitoras evangélicas passam pelas mãos de homens.
Uma parte do público evangélico ficou incomodada com Flavio mandando um dos Dez Mandamentos para o espaço ao mentir reiteradas vezes sobre ter ganhando R$ 61 milhões daquele que é tido hoje como o principal bandido do país, Daniel Vorcaro.

Isso num caldo em que a rejeição das mulheres aos homens do clã Bolsonaro é considerável, e não de agora. Do “você é tão feia que não merece ser estuprada” até a “filha que veio de uma fraquejada”, discute-se o quanto o senador aprendeu com o pai.
Após a repercussão negativa de uma declaração de Paulo Figueiredo, um dos aliados dos Bolsonaro, de que “mulher vota muito mal”, o influenciador dobrou a aposta e afirmou que “mulher vota mal para caralho”, frisando que especialmente as solteiras. Também, como já disse aqui ontem, como o senador não se dignou a desautorizar seus cães de guarda, ele divide a responsabilidade pelas mordidas distribuídas por eles.
Esse tipo de mensagem conversa com movimentos ultraconservadores dos Estados Unidos que defendem ideias como “uma casa, um voto”, em que o marido escolheria por toda a família. Ironicamente, é fruto do mesmo tipo de ultraconservadorismo que a ex-primeira-dama vem pregando.
Ao manter os ataques à madrasta por procuração, Flávio Bolsonaro busca evitar que suas impressões digitais fiquem na cena do crime. Mas a situação é tão descarada que qualquer semovente com o Tico e o Teco em dia sabe que o bolsonarismo atua de forma coordenada. Diante disso, ou ele é cúmplice ou um banana. Os eleitores não gostam de ambos.