Uma pré-campanha presidencial deveria funcionar como a antessala da entrevista de emprego: o candidato começa a explicar o que pretende fazer diante dos problemas do país e o eleitor decide se lhe entrega as chaves do Palácio do Planalto. Flávio Bolsonaro, porém, parece disputar outra vaga. Quer voltar a ser advogado particular do pai, mas pago com dinheiro público e instalado na Presidência da República.
Enquanto milhões de brasileiros esperam meses por consultas, exames e cirurgias no serviço público de saúde, o senador continua tratando como emergência nacional a situação judicial de Jair Bolsonaro. Trabalhadores tentam sobreviver à rotina pesada que lhes toma seis dias por semana sem tempo para descansar, ver os filhos, fazer um curso, e ele transforma a anistia dos condenados pela tentativa de golpe em prioridade nacional.
Pesquisa Genial/Quaest mostra que 69% dos eleitores apoiam o fim da escala 6×1, contra apenas 22% que rejeitam a mudança. Entre os entrevistados, 53% pretendem descansar e passar mais tempo com a família, caso a medida seja aprovada. Outros 13% dizem que vão buscar trabalho ou fazer hora extra para aumentar a renda, 12 % querem cursos e estudar, 9%, ir mais à igreja e a cerimônias religiosas, 6% vão passear, ir bares, restaurantes e festas e 4%, viajar.
A proposta, que foi aprovada pela Câmara por esmagadora maioria, está parada no Senado Federal por falta de vontade política do presidente Davi Alcolumbre. Enquanto isso, o grupo de Flávio Bolsonaro tenta emplacar a PEC da Hora Trabalhada, que vai no sentido contrário, e vem sendo chamada pela base governista como PEC do Patrão ou PEC do Fim do Descanso.
A saúde pública, por sua vez, aparece numericamente como o principal problema do Brasil para 21% dos entrevistados pelo Datafolha. Não é difícil entender: para quem aguarda um especialista, a fila não é uma abstração estatística, mas um calendário de angústia. O Sistema Único de Saúde é uma construção civilizatória e que precisa ser defendida diante da sanha dos que querem trocar cirurgia, vacina e ambulância gratuitos por vouchers e o “cada um por si e Deus por todos” que os EUA já provaram que não funciona.