No início de setembro de 2026, um vídeo que parecia mostrar o presidente argentino Javier Milei segurando uma motosserra e falando em português circulou nas redes sociais. Na gravação, ele atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarava apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. O conteúdo havia sido produzido com inteligência artificial a partir de uma fotografia publicada pela revista Forbes Argentina em 2024. Quando foi verificado pelo UOL Confere, acumulava mais de 263 mil curtidas no Instagram.
Poucos meses antes, outro vídeo fabricado por inteligência artificial atribuía ao ministro Luiz Fux a falsa informação de que Jair Bolsonaro seria solto e poderia disputar as eleições de 2026. As publicações haviam sido visualizadas mais de 50 mil vezes. Em agosto, vídeos manipulados fizeram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães pronunciarem críticas a Bolsonaro que nunca foram ditas por eles. Os exemplos envolvem personagens e interesses políticos diferentes, mas compartilham a mesma facilidade de produção, adaptação e circulação.
Cada um desses conteúdos pode ser submetido a uma checagem. Jornalistas podem localizar o registro original, comparar imagens, consultar documentos, ouvir especialistas e demonstrar que determinada fala ou cena foi fabricada. Esse trabalho é indispensável. Permite corrigir informações, oferecer evidências ao público e responsabilizar quem utiliza falsificações para interferir no debate político.
O problema é que a checagem começa depois que alguma coisa foi dita, publicada ou compartilhada. Enquanto uma equipe investiga um vídeo, novos áudios, imagens, textos e montagens continuam aparecendo. Alguns repetem alegações antigas com pequenas alterações. Outros combinam dados verdadeiros com conclusões enganosas, retiram falas de contexto ou apresentam opiniões como se fossem informações comprovadas. A desinformação não chega às redações em uma fila organizada. Ela circula simultaneamente por redes abertas, aplicativos de mensagens, transmissões ao vivo, canais de vídeo e perfis que podem desaparecer logo após uma publicação.
Por isso, o desafio contemporâneo não se restringe a determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Antes de verificar, alguém precisa decidir o que merece ser verificado. Essa escolha envolve avaliar alcance, dano potencial, relevância pública, possibilidade de comprovação, autoridade de quem fez a declaração e presença daquela narrativa em diferentes espaços. Depois da checagem, ainda é necessário decidir como apresentar o resultado, como fazê-lo alcançar as pessoas expostas ao conteúdo original e como acompanhar suas reformulações.