A naturalização da violência começa quando a destruição do outro passa a ser confundida com força, identidade e vitória.
Uma criança de nove anos, vestindo a camiseta amarela da seleção brasileira, ergue um objeto semelhante a uma arma de fogo sobre um carro, enquanto adultos comemoram, ao redor, o avanço do candidato Flávio Bolsonaro ao segundo turno das eleições presidenciais. A cena foi registrada em Parnamirim, no Rio Grande do Norte.
Segundo informações divulgadas pelo Conselho Tutelar local, o objeto seria um simulacro. A distinção material é indispensável, mas não encerra a questão. Embora uma arma de brinquedo não seja uma arma de fogo, quando empunhada por uma criança como emblema de celebração, diante de adultos reunidos em torno de um acontecimento político, ela nos obriga a perguntar quais sentidos estão sendo produzidos e que formas de pertencimento se tornam desejáveis.
A violência não se naturaliza apenas quando deixa de provocar medo. Naturaliza-se também quando seus símbolos se tornam familiares, deixam de causar estranhamento e passam a funcionar como sinais de força, vitória ou identidade. Nesse processo, a violência não desaparece, apenas muda de significado.
Não se trata de atribuir a uma imagem isolada o poder de explicar uma sociedade inteira, tampouco de deduzir dela as convicções de cada pessoa presente. Trata-se de reconhecer que os símbolos participam da produção da vida social. Eles ensinam modos de perceber o mundo, distinguir aliados e inimigos, imaginar o poder e definir aquilo que merece ser celebrado. Uma imagem não explica tudo, mas pode tornar visível algo que uma sociedade já aprendeu a tolerar.