
A gestão Ricardo Nunes (MDB) rastreou R$ 13 milhões em notas fiscais suspeitas na prestação de contas de um contrato de instalação de pontos de Wi-Fi firmado com o Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora da cinebiografia “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL).
O instituto é alvo de investigação sobre supostos desvios em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo. A Polícia Civil apura se o acordo relacionado ao Wi-Fi teria servido para bancar despesas do filme produzido pela Go Up Entertainment, empresa de Karina.
A administração municipal emitiu, em 1º de julho, uma notificação sobre inconsistências em notas fiscais apresentadas pela ONG e referentes ao primeiro semestre de 2025. O questionamento cita descrições vagas de despesas e documentos que acabaram cancelados depois da emissão.
Dos R$ 13 milhões apontados, R$ 11 milhões envolvem notas da Make One, Ultra IP, Complexsys e Favela Conectada, empresas que também aparecem na apuração da Polícia Civil. A prefeitura apontou falta de detalhamento sobre “área geográfica de atuação, os pontos de acesso instalados ou o escopo exato das atividades”.
Notas canceladas e cobrança de devolução
Um pagamento de R$ 500 mil à Favela Conectada teve a nota fiscal cancelada pela própria empresa dias depois de a prefeitura notificar a irregularidade, e a gestão municipal passou a exigir a devolução integral do valor. Autoridades do Ministério Público de São Paulo apontam que Alex Leandro Bispo, representante da empresa, teria ingressado no PCC enquanto cumpria pena na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista.
A prefeitura também identificou três pagamentos à JR Feijão Ltda, empresa do setor alimentício, que somaram R$ 406.752,50 e ocorreram em 11 de abril. As notas, emitidas em 10 de abril com a descrição genérica de “aquisição de material”, foram canceladas pela própria empresa em 16 de abril; por isso, a gestão classificou os gastos como ilegítimos e determinou a devolução dos valores.
Outros dois pagamentos questionados envolveram a Talk Comunicações: R$ 166.666 em março e R$ 181.818 em maio, sob a rubrica de “contrato de comunicação massificada”. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia cobrou do Instituto Conhecer Brasil relatórios de veiculação e comprovantes de mídia porque as notas não especificavam as praças atingidas nem detalhavam as campanhas realizadas.
A notificação deu prazo de 30 dias, a partir do recebimento do ofício, para o instituto apresentar justificativas por escrito e documentação retificadora sobre os itens questionados. Se a entidade não comprovar as despesas, a prefeitura pode obrigá-la a devolver os valores.
A Operação Sem Wi-Fi, da Polícia Civil, apontou que a Prefeitura de São Paulo teria pago valor 230% superior ao praticado no mercado para instalação de pontos de internet em comunidades periféricas. A investigação compara a cobrança da Prodam, de R$ 306 mais R$ 200 de manutenção mensal por ponto, com o acordo do ICB, que estipulou R$ 1.800 fixos por ponto; a prefeitura afirma que o custo estimado da parceria para 2026 é de R$ 1.280 por ponto/mês.
O faturamento declarado pelo Instituto Conhecer Brasil cresceu de R$ 306 mil no fim de 2022 para R$ 54 milhões no fim de 2025. O total inclui R$ 51,9 milhões em “parcerias e subvenções governamentais”, R$ 2 milhões em “subvenções com educação” e R$ 2,6 milhões em “receita com prestações de serviço”.
O ICB afirmou que não recebeu notificação relativa aos R$ 13 milhões em notas suspeitas vinculadas ao contrato de Wi-Fi. “Até o momento, toda a nossa prestação de contas junto aos órgãos competentes segue dentro da regularidade, conforme os procedimentos previstos em contrato”, disse a entidade, que também declarou permanecer à disposição para prestar esclarecimentos quando for oficialmente comunicada.