
A audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Anthony Fauci, perante um comitê do Senado americano, em 29 de julho, foi aproveitada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para recolocar a pandemia de covid-19 no centro do debate político brasileiro, a poucos meses das eleições gerais de outubro. Nos últimos dias, vídeos de políticos bolsonaristas voltaram a questionar vacinas, máscaras e as medidas adotadas durante a crise sanitária que matou mais de 700 mil brasileiros.
A convocação partiu do senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, que há anos acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de ter financiado pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan. Durante o depoimento, Fauci invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana — dispositivo que garante o direito de não produzir provas contra si mesmo —, o que irritou parlamentares republicanos. Seu advogado disse que ele está “amparado pela lei” e negou qualquer admissão de culpa. O recurso à Quinta Emenda não configura crime e já foi usado até pelo próprio Donald Trump em um processo civil, em 2022.
A origem da pandemia segue sem consenso dentro do próprio governo americano: um relatório desclassificado de 2023 do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência apontou que a maioria das agências considera mais provável a exposição natural a um animal infectado, enquanto o Departamento de Energia e o FBI avaliam como mais provável um incidente de laboratório. Em 2025, a CIA passou a considerar mais provável a hipótese de vazamento laboratorial, mas classificou essa avaliação como de baixa confiança.
Já a OMS mantém a transmissão natural como hipótese mais sustentada pelas evidências disponíveis. Parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre as mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia — alterações que ele já havia justificado anteriormente como resposta a novas evidências científicas surgindo com o tempo. Democratas saíram em sua defesa; a senadora Maggie Hassan chamou a audiência de “armadilha planejada”. Fauci nega qualquer irregularidade.
Repercussão
Após a audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido “desmentidas”. Eduardo Bolsonaro, dos Estados Unidos, foi um dos primeiros a declarar que pessoas deveriam pedir desculpas ao pai, dizendo que muita gente “caiu em uma fake news em relação à vacina”. O senador Magno Malta publicou que as revelações “só provam” que ele e Bolsonaro estavam certos desde o início. O jornalista Paulo Figueiredo escreveu que Bolsonaro tinha razão “em basicamente tudo” durante a covid, acompanhado de ataques à imprensa. A médica Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã Cloroquina”, disse que segue com “as mãos limpas” e que Fauci “mentiu e foi desmascarado”.
O vídeo de maior alcance foi publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição, que prometeu contar “a verdade” sobre a covid-19 e ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram. Sem apresentar provas, ele afirma que diários pessoais de Fauci revelariam contradições entre suas conversas privadas e decisões públicas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso pulmonar após se vacinar e escondido isso do público, e que ele teria abandonado a hidroxicloroquina após Trump defender o medicamento — mudança que, segundo Nikolas, teria impedido um tratamento capaz de “salvar milhões de vidas”. Essa hipótese não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo especialistas. Nikolas encerra o vídeo concluindo que “tinha alguém que tinha razão: Jair Bolsonaro”.
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello também publicou vídeo afirmando, sem citar novas evidências, que a narrativa da pandemia “está sendo desmontada” cinco anos depois, e que o ex-presidente e médicos que questionaram as medidas sanitárias foram injustamente chamados de “genocidas” e “negacionistas”. Ele defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid com a preservação da economia e a “autonomia médica”, o que, segundo ele, nunca significou negar a ciência.
Especialistas
Segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, as principais alegações — que máscaras seriam ineficazes, que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que efeitos adversos de vacinas teriam sido ocultados — não são sustentadas pelas evidências científicas. Ela explica que grandes ensaios clínicos randomizados não confirmaram benefício desses medicamentos, e que os efeitos adversos das vacinas foram monitorados e divulgados pelos próprios sistemas de vigilância de segurança. Para ela, o fato de Fauci ter invocado a Quinta Emenda não altera o consenso científico: “Não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países.”
Garrett reconhece falhas reais na condução da pandemia — mudanças de recomendação, problemas de comunicação e restrições com impactos sociais e econômicos — e admite que vacinas de RNA mensageiro podem provocar eventos adversos raros, como miocardite, especialmente em jovens. Mas pondera que isso não torna as vacinas mais perigosas que a doença, nem justifica dizer que todas as medidas de distanciamento foram inúteis. Para ela, o mais perigoso nesse tipo de vídeo é misturar fatos verdadeiros com conclusões que eles não sustentam — “a desinformação mais convincente normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto necessário”.
Leitura política
Para a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos é estratégia eleitoral: recolocar um tema polarizador na agenda para reforçar convicções já existentes entre apoiadores, explorando o viés de confirmação. Segundo ela, essa tática vem sendo usada desde 2018 e ganhou força com as redes sociais. Botelho avalia que o momento também serve para mobilizar a base bolsonarista num período considerado desfavorável para Flávio Bolsonaro, embora acredite que o alcance da estratégia seja limitado, já que a maior parte da população brasileira confia nas vacinas e reconhece seu papel na redução de mortes.
Já a professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, defende que a desinformação sobre a pandemia nunca cessou, e associa sua persistência à falta de responsabilização de quem a espalhou desde o início. Segundo ela, os diários de Fauci não trazem nada que altere o consenso científico — apenas registram dúvidas típicas de um momento em que pesquisadores tentavam entender uma doença nova — e a insistência na ideia de que vacinas fazem mal serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir conhecimento.
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