A 10ª fase da Operação Compliance Zero expõe o esquema de Thiago Miranda: influenciadores pagos com até R$ 2 milhões para atacar o Banco Central, dossiês ilegais contra jornalistas e empresários, e a intermediação de R$ 134 milhões entre Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
- A Polícia Federal realizou, na 10ª fase da Operação Compliance Zero, dois mandados de busca e apreensão em Brasília, autorizados pelo ministro do STF André Mendonça.
- O alvo principal foi o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi, apontado como líder do grupo “O Time”, investigado por coação, intimidação e coleta ilegal de dados de jornalistas e autoridades.
- A investigação revelou que Miranda atuou como elo entre o ex‑banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, intermediando pagamentos milionários para um filme sobre Jair Bolsonaro.
- Embora não haja vínculo operacional direto com os demais núcleos de Vorcaro, o grupo de Miranda teria usado métodos semelhantes de intimidação e violação de privacidade.
A Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero, cumprindo dois mandados de busca e apreensão em Brasília por determinação do Supremo Tribunal Federal. O principal alvo foi o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi, apontado como líder de “O Time”, grupo investigado por coação, intimidação e coleta ilegal de dados contra jornalistas e autoridades.
A operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, aprofunda a investigação sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e revela que Miranda atuou como elo entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, intermediando pagamentos milionários para um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
PF deflagra 10ª fase da Operação Compliance Zero e mira publicitário Thiago Miranda
A Polícia Federal identificou “O Time” como um terceiro núcleo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao lado das estruturas já conhecidas como “A Turma” e “Os Meninos”, mapeadas em fases anteriores da operação. O grupo teria sido articulado por Thiago Miranda, fundador da agência Mithi, contratado inicialmente para o gerenciamento de crise do banqueiro. Miranda é investigado por atuar com Vorcaro na intimidação de jornalistas, na coleta ilegal de dados e na coação de pessoas vistas como obstáculos pela organização.
Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça reconheceu que não foram identificados elementos que comprovem vínculo operacional direto entre “O Time” e os demais grupos de Vorcaro. Ainda assim, o ministro registrou que o grupo de Miranda “empregou método semelhante ao da organização criminosa de Daniel Vorcaro para coagir, intimidar e violar a privacidade e dados sigilosos de jornalistas, pessoas ligadas a autoridades públicas e potenciais adversários ou desafetos”. A PF informou que a identificação completa dos integrantes de “O Time” segue em andamento.
O esquema de manipulação e intimidação: ‘Projeto DV’ e ataques a críticos
A campanha coordenada contra o Banco Central tinha nome e padrinho: “Projeto DV”, iniciais de Daniel Vorcaro. Segundo a PF, o grupo pagava influenciadores digitais com ofertas de até R$ 2 milhões por postagens nas redes sociais destinadas a atacar a autoridade monetária e defender o Banco Master. Thiago Miranda é apontado como o principal articulador do esquema, recrutando influenciadores e jornalistas com propostas de “gerenciamento de reputação” para um “importante executivo”, exigindo acordos de confidencialidade com multa de R$ 800 mil antes de revelar o nome do contratante. Quem assinava, descobria a tarefa: produzir conteúdo afirmando que o Banco Master havia sido “vítima” do Banco Central.
Quem recusava as ofertas virava alvo. O grupo utilizava informações privadas, obtidas de forma ilícita por meio de plataformas clandestinas de venda de dados, para intimidar e coagir quem não aderisse ao projeto. Entre os alvos estava a jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo: a PF apurou que Miranda e Vorcaro levantaram dados sobre sua renda estimada, movimentações bancárias, operações em cartões de crédito e informações sobre seus filhos, com o objetivo declarado de reunir “elementos potencialmente desabonadores”. O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, também foi alvo. Mensagens obtidas pela PF mostram Vorcaro escrevendo a Miranda: “Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy. Está me causando muito problema. Me ajuda nisso?”. A resposta de Miranda foi imediata: “Deixa comigo”. Um dossiê com informações pessoais e patrimoniais do executivo e de sua esposa foi encontrado com a identidade visual da agência de Miranda.
Conexões políticas: Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme ‘Dark Horse’
Thiago Miranda não era apenas o operador da campanha de desinformação. Foi ele o responsável por apresentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro no final de 2024 e por atuar diretamente na intermediação dos pagamentos de Vorcaro a um fundo nos Estados Unidos para o patrocínio do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Diálogos do celular de Miranda, revelados em maio pelo Intercept Brasil e confirmados pelo Estadão, indicaram que o publicitário marcou encontros entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro e fez cobranças ao banqueiro por pagamentos atrasados.
As mensagens também mostraram que Flávio Bolsonaro teria acertado diretamente com Vorcaro repasses de R$ 134 milhões, sob a justificativa de patrocinar o filme, com os valores sendo enviados a um fundo sediado nos EUA e gerido por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal solicitou a abertura de inquérito para verificar se esses valores foram desviados para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ou tiveram outra destinação. O status desse inquérito e a eventual comprovação de desvio de finalidade seguem em apuração.
Repercussão e próximos passos da investigação
A defesa de Thiago Miranda divulgou nota negando “qualquer ilegalidade”. O advogado Rafael Martins afirmou que a atuação profissional do publicitário “sempre foi pautada pela legalidade, transparência e respeito às instituições”, e que ele “não praticou qualquer ato criminoso, tampouco participou de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros”. A nota acrescenta que Miranda está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A gravidade do que a PF apurou, porém, vai além do papel de Miranda. Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça registrou que a organização de Vorcaro mantinha um núcleo especializado em intimidar adversários e obter dados sigilosos, que atuaria “por meio da cooptação e corrupção de policiais, inclusive federais”. Segundo a PF, esse braço da organização teria permitido que Vorcaro tomasse conhecimento antecipado da operação deflagrada em novembro de 2025, mobilizando contatos para minimizar seus efeitos e tentando deixar o país, sendo preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos momentos antes de embarcar em voo internacional. Thiago Miranda pode responder por crimes contra o sistema financeiro, organização criminosa, embaraço à investigação e violação de dados sigilosos, conforme a PF. A identificação dos demais integrantes de “O Time” e dos policiais que teriam sido cooptados segue em andamento, com o inquérito sob sigilo.
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