Quem tem um bar pequeno conhece uma rotina que quase ninguém de fora entende. É o peso de girar a chave do cadeado na madrugada fria, o estresse com o preço da mercadoria que sobe no fornecedor, o malabarismo para cumprir a folha de pagamento e o cansaço físico de passar horas de pé. Para o pequeno comerciante, o bar não é um investimento abstrato na Bolsa de Valores: é o sustento da família, garantido com o suor do próprio rosto.
No entanto, no meio da correria do dia a dia, rola uma conversa fiada na política que tenta vender uma ilusão perigosa: a de que, só porque você abriu um CNPJ, agora você faz parte de um seleto grupo de empresários e, por isso, deveria votar em candidatos que defendem a pauta da extrema-direita, como o Flávio Bolsonaro.
Não é porque você tem obrigações diferentes das de um trabalhador que você deixa de ter uma rotina exaustiva e de ser vulnerável economicamente. Vamos colocar a realidade no papel e fazer as contas que importam? Se você precisa carregar engradado, limpar o balcão, brigar pelo preço do gelo e, principalmente, se você não puder tirar um mês de férias sem que o seu negócio corra o risco de quebrar, você não é o “grande empresário” que essa ala da política protege. Você é um trabalhador por conta própria. E votar achando que tem os mesmos interesses econômicos de um bilionário ou de um grande herdeiro político é o primeiro passo para errar o diagnóstico do seu próprio caixa.
Vamos começar pelo primeiro mito sedutor: menos burocracia. Para o microempresário que sofre com ela, isso soa como música. Mas conta aqui, você abriu um bar ou restaurante em São Paulo, cidade governada há décadas pela direita; foi tranquilo ou é burocracia intensa por todos os lados? Alvará, CNAE, contrato social, PSIU, vigilância sanitária, alvará dos bombeiros e mais um tanto de coisas. Isso tudo é a prefeitura que determina.
Agora, o “estado menor”, que significa menos presença, privatização e maior autonomia às prestadoras de serviço, como Enel e Sabesp. O que te atrapalha mais na operação, a falta de luz, de água ou de transporte público para os funcionários irem embora? Essa é a promessa de diminuir o Estado em pleno funcionamento, um agradecimento ao Tarcísio e sua turma.