Quando o Partido Liberal confirmou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, a apresentação oficial insistiu na ideia de uma candidatura “puro-sangue”, fiel às origens do bolsonarismo e alheia à tradicional lógica de negociação do presidencialismo de coalizão brasileiro. A sequência de negociações, recusas e acomodações que antecedeu o anúncio, porém, revela uma realidade bastante distinta da narrativa apresentada pela campanha.
Horas antes do anúncio, uma sondagem BTG/Nexus registrava um cenário competitivo entre Flávio Bolsonaro e Lula. A notícia politicamente mais significativa daquele dia, porém, não estava nos números da pesquisa, e sim na forma como a chapa presidencial foi construída.
Enquanto as pesquisas mantinham Flávio Bolsonaro competitivo na disputa, PP e Republicanos optavam por permanecer fora dela. Esse contraste entre desempenho eleitoral e isolamento político ajuda a explicar por que a vaga de vice terminou nas mãos de um deputado alagoano que, há poucos meses, dificilmente figurava entre os nomes mais cotados.
O centro dessa história não é Gaspar, mas quem recusou o convite antes dele. A campanha empenhou-se em atrair a senadora Tereza Cristina, do PP, a ponto de Flávio afirmar publicamente que ela já havia aceitado o convite. A federação PP-União Brasil, porém, decidiu manter neutralidade nacional na disputa, inviabilizando formalmente sua entrada na chapa.
A alternativa seguinte foi a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, apoiada pelo próprio governador Tarcísio de Freitas. Também ali, entretanto, a resposta foi negativa: após consultas internas, o Republicanos optou por permanecer neutro. Duas tentativas, dois vetos institucionais. Não faltou disposição individual de alguns dirigentes para negociar; prevaleceu a decisão das estruturas partidárias.