
Editorial | Eleições 2026
Não dá para chamar de simples divergência política aquilo que transforma a existência de pessoas trans em alvo de humilhação. Não dá para reduzir ameaças contra uma jovem mulher negra a barulho de internet. O Congresso que tomará posse em 2027 já foi escolhido nas urnas, e parte de seus nomes mais votados carrega esse debate nas costas. Com números, projetos e registros públicos, não com bola de cristal.
Para este editorial, a catástrofe é a normalização do preconceito como ferramenta de poder. Essa é nossa avaliação política. Os fatos que sustentam a crítica estão abaixo, com fontes e limites de cada caso.
O tamanho do poder, sem maquiagem nos números
A eleição de deputados e senadores foi decidida no primeiro turno. A disputa presidencial e os governos que terão segundo turno não mudam os votos já apurados para o Congresso. A posse da nova legislatura ocorrerá em 2027.
Na Câmara, a consolidação dos resultados estaduais do TSE registra 121 deputados eleitos pelo PL entre 513 cadeiras. É a maior bancada partidária, mas não é maioria absoluta sozinha: esse patamar exige 257 parlamentares. Direita e extrema direita também não são sinônimos, e legenda não substitui a análise do comportamento de cada eleito. Fonte: resultados oficiais do TSE.
No Senado, o levantamento da Rádio Senado para 2027 informa 28 cadeiras do PL e 12 da federação União Brasil/PP. Somadas, são 40. Acrescentando Republicanos, com cinco, e Novo, com três, chega-se a 48 das 81 cadeiras. Essa conta descreve o peso dessas legendas, não prova uma aliança permanente nem autoriza classificar todos os seus integrantes como extrema direita. A própria fonte ressalva mudanças ligadas a suplências. Fonte: Rádio Senado, 5 de outubro de 2026.
O poder é concreto. Também é concreto que as presidências e comissões da próxima legislatura ainda não foram escolhidas. Não vamos anunciar cortes, derrotas legislativas ou medidas futuras como se já tivessem acontecido. O que precisa ser cobrado agora é o histórico de quem recebeu esse poder.
Os 20 deputados federais eleitos mais votados do país
Ranking por votos nominais absolutos, entre candidatos eleitos, consolidado nos 26 estados e no Distrito Federal. Não compara percentuais do eleitorado estadual nem é um ranking de representatividade: estados maiores oferecem mais votos em números absolutos. As siglas são as registradas no resultado eleitoral.
- NIKOLAS FERREIRA, PL-MG: 3.119.318 votos.
- LUCAS PAVANATO, PL-SP: 3.038.438 votos.
- ERIKA HILTON, PSOL-SP: 1.596.472 votos.
- ANDRÉ FERNANDES, PL-CE: 684.372 votos.
- SÂMIA BOMFIM, PSOL-SP: 583.107 votos.
- JULIA ZANATTA, PL-SC: 560.223 votos.
- ANA ELISA, PT-MG: 524.219 votos.
- KIM KATAGUIRI, MISSÃO-SP: 520.071 votos.
- TABATA AMARAL, PSB-SP: 476.383 votos.
- JEFFREY CHIQUINI, NOVO-PR: 425.399 votos.
- LUCAS POLESE, PL-ES: 419.735 votos.
- DELEGADO CAVEIRA, PL-PA: 414.927 votos.
- MAURÍCIO MARCON, PL-RS: 379.834 votos.
- RENATO BOLSONARO, PL-SP: 379.312 votos.
- SARGENTO NANTES, PP-SP: 333.401 votos.
- JADER FILHO, MDB-PA: 326.617 votos.
- DELEGADO PALUMBO, PODE-SP: 303.271 votos.
- FERNANDA MELCHIONNA, PSOL-RS: 280.262 votos.
- GUILHERME CORTEZ, PSOL-SP: 275.450 votos.
- DRA. ALESSANDRA HABER, PODE-PA: 272.856 votos.
A lista não é uma lista de acusados. Os casos documentados a seguir dizem respeito apenas às pessoas e aos episódios expressamente citados. Não atribuímos fala preconceituosa aos demais nomes por associação partidária.
Nikolas Ferreira: a peruca não apaga a gravidade da fala
O deputado do PL de Minas Gerais lidera a votação nacional. No episódio em que usou uma peruca na Câmara, declarou: “Hoje me sinto mulher, deputada Nikole” e afirmou que mulheres estariam perdendo espaço para homens que se sentem mulheres. Transformar a identidade de mulheres trans em deboche num espaço institucional merece crítica pública, não aplauso.
Há uma distinção jurídica indispensável: em março de 2026, o TJDFT anulou a condenação civil de R$ 200 mil relativa ao discurso, com fundamento na imunidade parlamentar. Portanto, não apresentamos aquela condenação como vigente nem como condenação criminal. A decisão não faz a fala desaparecer do debate político. Fonte: Migalhas, sobre a decisão do TJDFT.
Lucas Pavanato: exclusão apresentada como proteção
Eleito pelo PL de São Paulo e segundo colocado em votos no país, Pavanato apresentou, quando vereador, três projetos em três dias de janeiro de 2025 direcionados a pessoas trans: participação esportiva, atendimento de saúde de menores e uso de banheiros. Eram propostas, não leis automaticamente aprovadas. O vereador as justificou como proteção de mulheres e crianças; entidades ouvidas pela reportagem contestaram suas bases e constitucionalidade. Fonte: UOL, 17 de janeiro de 2025.
Em outro episódio, dirigiu-se à vereadora trans Amanda Paschoal como “biologicamente homem”. A parlamentar apresentou denúncia; Pavanato sustentou que falava de biologia. A referência ao corpo de uma colega para negar o gênero pelo qual ela se apresenta é o centro da crítica, não um detalhe lateral. Fonte: CNN Brasil.
Em agosto de 2026, a Justiça Eleitoral determinou a remoção de um vídeo contra Erika Hilton, segundo relato do Alma Preta. A análise judicial considerou o contexto discriminatório, não a palavra “travesti” isoladamente. Travesti não é insulto por si só. A decisão de remoção também não equivale a condenação criminal. Fonte: Alma Preta.
André Fernandes: uma sentença civil sobre humilhação
Eleito pelo PL do Ceará, André Fernandes foi condenado em primeira instância, em decisão noticiada em 6 de outubro de 2026, a pagar R$ 50 mil a Erika Hilton por um vídeo. A Justiça também determinou a remoção da publicação. Conforme o g1, o vídeo insistia no nome anterior e em referências masculinas à deputada. A sentença descreveu um “ataque pessoal e discriminatório contra a identidade de gênero”.
A decisão é civil e admite recurso. O g1 informou ter procurado a defesa, sem resposta até a publicação da reportagem. Nosso ponto é político: humilhar uma mulher trans não se torna debate de ideias porque foi feito por um deputado com muitos votos. Fonte: g1, sobre a sentença.
Julia Zanatta: o que está escrito no projeto
Reeleita pelo PL de Santa Catarina, Julia Zanatta é autora do PDL 331/2024. A proposta pretende sustar a resolução da Defensoria Pública da União que reservou 2% das vagas de concursos para defensor público federal a pessoas trans e travestis.
A autoria e o objetivo constam nos dados oficiais da Câmara. Não estamos dizendo que a revogação foi aprovada. Estamos apontando uma iniciativa legislativa concreta para retirar uma política de inclusão. É sobre acesso ao serviço público e representação, não uma polêmica inventada para render cliques. Fonte: Câmara, texto descritivo do PDL 331/2024; registro oficial de autoria.
Kim Kataguiri: liberdade de expressão não encerra a cobrança
Eleito por São Paulo pelo partido Missão, Kim Kataguiri afirmou, no Flow em fevereiro de 2022, considerar errada a criminalização do nazismo na Alemanha. Isso é diferente de atribuir a ele a frase de Monark sobre criar um partido nazista: cada pessoa responde pelo que efetivamente disse. Fonte: Nexo, relato do episódio.
Depois, Kim pediu desculpas e negou defender o nazismo. Essa resposta precisa acompanhar o registro da fala. Ainda assim, relativizar a proibição de uma ideologia de extermínio exige cobrança política séria. A crítica aqui recai sobre o argumento registrado, não sobre uma adesão ao nazismo que não estamos afirmando. Fonte: Folha, pedido de desculpas.

Erika Hilton: cidadania, não favor
A deputada do PSOL de São Paulo é a terceira mais votada entre os eleitos do país. Em discussão sobre mulheres trans na Câmara, em agosto de 2023, afirmou: “Queremos espaços dignos na sociedade, direito à cidadania”. Também perguntou: “Por que a luta de outras mulheres precisa excluir a nossa existência?” Fonte: O Globo, registro do discurso.
Esse é o contraste que interessa: de um lado, tornar a existência de uma mulher motivo de chacota; de outro, exigir dignidade e participação na vida pública. Não há obrigação de tratar as duas posições como se produzissem o mesmo efeito humano.
Sâmia Bomfim: a reação ao ataque ao aborto legal
Reeleita pelo PSOL de São Paulo e quinta colocada nesse ranking, Sâmia Bomfim contestou, em discurso de 18 de março de 2026, a urgência de um projeto sobre o Dia do Nascituro. Associou a iniciativa à pressão contra mulheres e meninas que recorrem ao aborto legal após estupro. Concluiu: “Isso vai ter resposta.”
A expressão “PL do estupro”, usada por ela no discurso, é sua crítica política, não o nome oficial de todo projeto mencionado. O registro permite reconhecer a posição sem confundir denúncia parlamentar com fato jurídico já decidido. Fonte: transcrição oficial da Câmara.
Ana Elisa: uma jovem mulher negra não deveria precisar de escolta
Eleita pelo PT de Minas Gerais com 524.219 votos, Ana Elisa, de 21 anos, é a mulher mais jovem eleita para a Câmara. Segundo a Agência Brasil, denunciou à Polícia Civil ameaças de morte e violência sexual, acompanhadas de ataques racistas e machistas e exposição de dados pessoais. O partido contratou segurança para protegê-la. Sua frase é curta e brutalmente concreta: “Chegando em Minas Gerais, já terei escolta”.
A reportagem relata que o autor de uma mensagem se apresentou como integrante do Ku Klux Klan. Isso descreve o conteúdo da ameaça, não uma filiação já comprovada pela investigação. Não atribuímos essas ameaças a outro candidato sem prova. A gravidade está no fato de uma mulher negra ser ameaçada por ocupar o espaço político. Fonte: Agência Brasil, 8 de outubro de 2026.
A catástrofe é normalizar. A resposta é cobrar
Não precisamos inventar o futuro para enxergar a gravidade do presente. Existem projetos para excluir pessoas trans, falas de deboche, uma sentença civil sobre discriminação e ameaças denunciadas por uma mulher negra eleita. Cada caso tem seu autor, seu contexto e seu estágio jurídico. Misturar tudo seria enfraquecer a cobrança.
Direitos não são um prêmio reservado a quem passa no teste moral de um parlamentar. Pessoas trans, mulheres negras e meninas vítimas de violência não são personagens descartáveis de uma disputa por engajamento.
Não normalize o preconceito. Leia as fontes, cobre os eleitos e acompanhe seus votos. Mandato não é licença para humilhar.
Fontes, método e créditos
Resultados consultados em 11 de outubro de 2026. O ranking foi formado com os arquivos oficiais do TSE para deputado federal, eleição 6259, nas 27 unidades da Federação, selecionando os 513 candidatos com indicação de eleitos e ordenando os votos nominais. O levantamento partidário do Senado é o publicado pela Rádio Senado em 5 de outubro. A classificação editorial não substitui filiação partidária, sentença ou votação legislativa.
As duas fotografias são de arquivo, com datas nas legendas. Congresso: Roque de Sá/Agência Senado, CC BY 2.0. Erika Hilton: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados, CC BY 3.0. Ambas receberam apenas recorte e redução para esta publicação; não retratam a eleição de 2026.
Fontes consultadas
- Fonte: resultados oficiais do TSE
- Fonte: Rádio Senado, 5 de outubro de 2026
- Fonte: Migalhas, sobre a decisão do TJDFT
- Fonte: UOL, 17 de janeiro de 2025
- Fonte: CNN Brasil
- Fonte: Alma Preta
- Fonte: g1, sobre a sentença
- Fonte: Câmara, texto descritivo do PDL 331/2024
- registro oficial de autoria
- Fonte: Nexo, relato do episódio
- Fonte: Folha, pedido de desculpas
- Fonte: O Globo, registro do discurso
- Fonte: transcrição oficial da Câmara
- Fonte: Agência Brasil, 8 de outubro de 2026