A subordinação de interesses nacionais aos ditames de Washington transforma o candidato da extrema direita em um instrumento de potências estrangeiras, e a disputa eleitoral presidencial ganha contornos de um embate geopolítico pela autonomia do país
O jornal argentino Pagina 12 publicou artigo assinado por Jorge Elbaum sob o título Cipayo en la niebla, chamando o presidente Javier Milei de “cipaio”. Um cipaio (ou sipaio) era um soldado indiano que trabalhava para o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais durante o século XIX. Essa palavra também virou o nome de uma famosa revolta contra o domínio inglês na Índia.
Portugal manteve forças de sipaios no seu Estado Português da Índia e, mais tarde, em outros dos seus territórios ultramarinos. Fora da Índia, o maior contingente de sipaios foi estabelecido por Portugal em Moçambique, passando o termo a designar nos anos vindouros, sob dominação portuguesa, uma força militar, mais vocacionada para o policiamento local e rural, que era comandada por um oficial europeu.
O Brasil também tem os seus cipaios. Não perde para a Argentina. O candidato Flávio Bolsonaro, por exemplo, em matéria de traição, não fica nada a dever a Javier Milei. Aliás, a pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 5 de agosto, mostrou que, para 34% dos brasileiros, o apoio de Javier Milei a Flávio Bolsonaro aumenta a chance de voto em Lula. Outros 17% afirmaram que o endosso do presidente argentino eleva a chance de escolha de outro candidato, nem Lula nem Flávio.
Flávio Bolsonaro passou a defender os interesses do governo Donald Trump contra o Brasil quando Jair Bolsonaro passou a responder a processos relacionados à tentativa de golpe de 2022. Daí decorre uma sequência de episódios envolvendo tarifas, pressão política dos EUA sobre o governo brasileiro e a atuação de Flávio e de seu irmão Eduardo Bolsonaro em Washington pedindo sanções dos EUA contra o Brasil.