“No mundo de hoje, não há lugar para o racismo”, enfatizou o senador paraguaio Eduardo Nakayama, do Partido Liberal, ao rejeitar as declarações discriminatórias proferidas pela sua colega Celeste Amarilla contra o principal jogador da seleção da França, Kylian Mbappé. Embora afirme reconhecer a indignação da nação sul-americana contra o que classificou uma “conduta antidesportiva” do atacante durante e após a partida contra o Paraguai, na atual edição da Copa do Mundo, reiterou que a postura de Amarilla não representa o povo.
“Além das paixões que o futebol desperta e das simpatias ou antipatias que possam surgir em relação aos jogadores, não podemos tolerar o fanatismo ou a indignação que levem a ataques racistas ou discriminatórios”, afirmou Nakayama a Opera Mundi .
A eliminação do Paraguai para a França nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 gerou uma crise diplomática que ultrapassou as fronteiras do futebol. Em 4 de julho, logo após a partida, a senadora paraguaia Celeste Amarilla, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), publicou em suas redes sociais uma série de ataques racistas contra Mbappé, chamando-o de “camaronês colonizado, fingindo ser francês”. O jogador nasceu em Paris, e é filho de pai camaronês e mãe franco-argelina.
As declarações foram duramente condenadas pelo próprio governo paraguaio, pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelas autoridades francesas. Na quarta-feira (08/07), o Ministério de Esporte da França relatou ter recebido um “pedido de desculpas” em carta assinada pelo corpo diplomático do Paraguai. Ainda conforme Nakayama, o Senado do Paraguai também aprovou nesta semana, por unanimidade, uma moção de repúdio, esclarecendo que as declarações são de responsabilidade exclusiva da parlamentar.
Sobre eventuais sanções à Amarilla, o senador explicou que a Constituição paraguaia garante ampla liberdade de expressão e proíbe a censura prévia, mas deixa aberta a possibilidade de queixa-crime por difamação.

Senadora paraguaia, Celeste Amarrila, e jogador da seleção francesa e do Real Madrid, Kylian Mbappé
X/@CelesteSenadora/@KMbappe
O senador explicou que a indignação generalizada no Paraguai se deveu ao comportamento “antidesportivo” de Mbappé contra os jogadores da seleção nacional, que segundo relatos da mídia incluiu insultos, além da recusa do francês em cumprimentar o goleiro Orlando Gill no fim da partida, episódio mencionado por Amarilla em uma de suas publicações.
“Esse bruto nem aprendeu a escrever. Em vez de leite materno, mamou em cocos, e os seres mais instruídos que ouviu foram chimpanzés. Você deveria ter mostrado o dedo do meio para ele, Orlando Gill. Eu faço isso no Senado e nada acontece. Um camaronês colonizado, fingindo ser francês, ressentido, novo-rico, arrogante e feio”, escreveu a parlamentar na rede social X. A plataforma limitou a visibilidade desta publicação, explicando que “pode violar as regras do X contra a conduta de propagação de ódio”.
Posteriormente, a senadora paraguaia cobrou uma retratação de Mbappé, ameaçando-o de acionar o jogador por “violência de gênero” depois de ele reagir aos ataques racistas e chamá-la de “desprezível”.
“Madame Celeste Amarilla, você é uma mulher desprezível e indigna de sua função. Você não representa o Paraguai, esse país que transpirou paixão e honra ao longo de toda a competição. Por sua inconsciência e seu racismo descomplexado, o mundo inteiro já esqueceu o percurso e o esforço histórico que seus jogadores realizaram durante esta Copa do Mundo, dando lugar a uma senhora incompetente que oferece a pior imagem possível de seu país. Eu nunca deixarei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar seu ódio e seu racismo pelo mundo”, havia respondido o atacante.
A crise expôs o que Nakayama definiu como uma “consciência insuficiente” na sociedade paraguaia sobre a gravidade do racismo, atribuído por ele, em parte, ao alto grau de homogeneidade étnica do país e à integração histórica de imigrantes. Em sua perspectiva, as críticas que se espalharam pela França e pela Europa afetaram tanto o Congresso quanto o povo paraguaio, retratando-nos como uma sociedade racista.
“O que é incorreto e por isso sentimos a necessidade de nos manifestar e declarar nossa posição”, disse. Nakayama reitera que o impacto de um ataque racista como o de Amarilla não se limita à vítima, no caso, Mbappé, mas “se estende a toda a comunidade ou minoria visada”.
Por fim, o parlamentar destacou que o futebol, especialmente na América do Sul, deveria ser uma “força unificadora” e não um palco para o racismo. “O fervor desenfreado se transforma em violência física ou verbal, que acaba destruindo não apenas negócios e espaços públicos, mas, sobretudo, a própria sociedade”, apontou, defendendo que a FIFA intensifique campanhas de conscientização para erradicar a discriminação e o racismo dos estádios e da sociedade.