Há algo fora do lugar na crise entre André Mendonça e a Polícia Federal. Não porque seja absurdo desconfiar de um ministro que chegou ao Supremo pelas mãos de Jair Bolsonaro, depois de servir ao seu governo. Essa trajetória existe, importa e deve ser considerada.
O problema começa quando a biografia de Mendonça deixa de ser contexto e passa a funcionar como resposta. Nas últimas semanas, consolidou-se uma narrativa simples: de um lado, a PF tentando investigar; do outro, um ministro bolsonarista incomodado com as investigações.
É uma história fácil de compreender. E talvez por isso algumas perguntas difíceis estejam passando quase despercebidas.
A mais evidente: por que a Polícia Federal pediu a abertura de três inquéritos diferentes em torno de uma mesma acusação de tráfico de influência?
Os pedidos partiram da própria PF. Não foi Mendonça quem decidiu, por iniciativa própria, abrir três investigações. Isso tampouco significa que exista irregularidade. Inquéritos podem ser desmembrados quando há fatos, investigados ou objetos distintos.