
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a defesa de Jair Bolsonaro esclareça, em até 48 horas, se ele autorizou o uso de sua imagem e voz recriadas por Inteligência Artificial (IA). O vídeo foi exibido na convenção nacional do Partido Liberal (PL) que oficializou a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
A manifestação da defesa deve definir o enquadramento jurídico do caso. Caso Bolsonaro tenha concordado com a gravação, o STF deve considerar a conduta como um novo descumprimento das regras de sua prisão domiciliar humanitária, o que pode levar ao retorno para o regime fechado. Se não houve autorização, a responsabilidade recairá sobre o PL e sobre o pré-candidato por descumprimento de normas eleitorais.
Transgressão e risco de regime fechado
Atualmente sob prisão domiciliar humanitária concedida para tratamento de saúde, Bolsonaro está proibido de participar de atividades político-eleitorais e de se manifestar publicamente, inclusive por intermédio de terceiros ou pelas redes sociais. Ele cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão e está com os direitos políticos suspensos.
Na decisão, Moraes destacou que a exibição da gravação sintética em um evento de pré-campanha configura uma potencial violação grave das determinações judiciais.
“A eventual concordância de JAIR MESSIAS BOLSONARO com a divulgação de um vídeo produzido por IA, e amplamente divulgado nas redes sociais, contendo sua imagem e declarações ostensivamente político-eleitorais constituiria nova e grave transgressão à decisão judicial, poucos dias após ser sancionado, e passível de reversão da prisão domiciliar humanitária para o regime fechado“, afirmou o ministro no despacho.
No vídeo exibido durante a convenção, a avatar gerada por IA declara estar “preso e calado por uma decisão arbitrária“, afirma que “nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança“ e pede que os eleitores recebam Flávio Bolsonaro “de braços abertos” como candidato ao Planalto.
Uso de deepfake na mira do TSE
Caso a defesa declare que o ex-presidente não deu permissão para a reprodução do material, a conduta passa a ser investigada no âmbito da legislação eleitoral.
O ministro ressaltou que, sem a autorização, “além de constituir desrespeito à ordem judicial por FLÁVIO NANTES BOLSONARO e pelo Partido Liberal (PL), tal conduta poderá tipificar a denominada ‘deep fake’, prática expressamente vedada pela legislação eleitoral“.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe a utilização de conteúdo sintético para simular a fala ou imagem de pessoas vivas em contexto eleitoral. Na esteira do episódio, o Partido dos Trabalhadores (PT) acionou a Justiça Eleitoral contra o PL e o senador Flávio Bolsonaro, alegando propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de tecnologia.
Histórico de sanções recentes
A cobrança do STF ocorre dias após o ex-presidente sofrer sanções pelo descumprimento de medidas cautelares. Bolsonaro havia sido punido após a divulgação de uma carta redigida por ele e publicada por Flávio nas redes sociais, na qual o ex-mandatário apontava o filho como seu porta-voz político.
Em resposta ao episódio, Moraes proibiu visitas ao ex-presidente por 30 dias, mantendo apenas a equipe médica e os advogados, suspendeu as visitas de Flávio Bolsonaro pelo prazo de 90 dias e vedou qualquer encontro no local com finalidade político-eleitoral até o término do processo eleitoral de 2026.
Defesa de Flávio Bolsonaro rechaça descumprimento de lei eleitoral em vídeo de IA
Especialistas veem vídeo de Bolsonaro feito com IA como possível propaganda eleitoral antecipada
PL lança Flávio Bolsonaro à Presidência sem definir vice ou alianças