As eleições de 2026 trouxeram um recorde ao Senado Federal: 12 mulheres eleitas, superando o recorde anterior de oito eleitas em 2002. A partir de 2027 serão 18 senadoras (22%) entre 81 cadeiras. É um avanço em uma instituição que até 2015 sequer tinha banheiro feminino no plenário. Mas o resultado também impõe outra pergunta: quem são essas mulheres e quais projetos políticos elas defendem?
As eleições de Michelle Bolsonaro (PL), pelo Distrito Federal, e de Marília Arraes, por Pernambuco, ajudam a pensar essa questão. Michelle se consolidou como uma das principais vozes do conservadorismo cristão; Marília construiu sua trajetória na esquerda pernambucana associada à justiça social e aos direitos das mulheres. Mas ambas recorrem às mesmas referências em suas imagens públicas: família, maternidade, filhos, fé e cristianismo. O que muda são os sentidos que lhes atribuem e os projetos que legitimam.
A trajetória de Michelle é reveladora. Em 2018, sua presença na campanha de Jair Bolsonaro estava vinculada sobretudo às posições de esposa, mãe e apoiadora do candidato. Sua primeira aparição na propaganda eleitoral ocorreu em 25 de outubro, três dias antes do 2º turno. Em 2022, sem abandonar essas identidades, Michelle combinou-as à condição de mulher evangélica e primeira-dama, conquistando protagonismo próprio. Ao seu redor, lideranças religiosas, figuras do governo, celebridades e candidaturas aproximaram diferentes fontes de autoridade.
Uma cena de 2022 sintetiza essa transformação. Em um encontro com mulheres, Michelle começa: “Uma mulher sábia edifica seu lar, mas muitas mulheres sábias…”. A plateia completa: “edificam a nação”. Do lar para a nação. Michelle não precisa romper com o papel tradicionalmente atribuído à mulher cristã para reivindicar autoridade pública.
Ser esposa, mãe e evangélica torna-se uma credencial política: a mulher que edifica a casa é convocada a edificar o país. Uma publicação afirmava que Michelle “reúne mais mulheres que o feminismo”. A frase mostra que a presença de conservadoras na política não equivale à adesão a uma agenda feminista. Há uma disputa sobre quem pode falar pelas mulheres e quais valores podem ser apresentados como seus interesses.