Há um mito grego que Pernambuco parece reencenar sem saber. Depois da queda de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Polinices, herdam juntos o trono de Tebas e combinam governar em anos alternados. Chegada a vez de Polinices, Etéocles se recusa a ceder o poder. O irmão preterido marcha contra a própria cidade natal à frente de um exército estrangeiro — os Sete Contra Tebas — não como um invasor de fora, mas como herdeiro reclamando o que considera seu por direito de sangue. Os dois se matam nos portões da cidade, filhos da mesma maldição, disputando o mesmo trono, dentro do mesmo palácio que os formou.
A eleição pernambucana vem sendo empurrada para uma falsa polarização: como se a disputa entre Raquel Lyra e João Campos fosse a mera expressão local de uma briga nacional entre bolsonarismo e lulismo. Para parte do debate público, Raquel funcionaria como polo “mais à direita”; João, como polo “ligado a Lula”. Esse espelhamento ajuda na propaganda, mas erra o gênero da história que está sendo contada. Não é uma guerra entre mundos opostos — é uma disputa de sucessão, tebana em sua estrutura, ainda que pernambucana em seu cenário.
Raquel Lyra não é bolsonarista, e João Campos tampouco é, no sentido político e ideológico, um “lulista” por natureza. O conflito que estrutura o calendário eleitoral pernambucano é outro: a disputa pelo controle do centro político estadual, pela condução das engrenagens do Estado e pela capacidade de reorganizar alianças e lideranças em um momento em que a antiga hegemonia do PSB entrou em crise e em redefinição — sua própria “morte de Édipo”, o ponto em que a autoridade que unificava os herdeiros se esvazia e o trono fica em aberto.
Por que “herdeiros do mesmo trono”? Não se trata de afirmar que Raquel e João sejam iguais, nem de reduzir seus projetos a um mesmo programa. Trata-se de reconhecer que ambos são produtos de uma mesma lógica de poder: famílias tradicionais, partido como instrumento de hegemonia, ocupação institucional e pragmatismo eleitoral. Como Etéocles e Polinices, adversários — mas competindo a partir de trajetórias que compartilham a base cultural e organizativa do mesmo ecossistema político, a mesma genealogia, a mesma casa.
No caso de Raquel, a tentativa de associação ao bolsonarismo decorre muito mais de composições eleitorais e do clima de 2022 do que de uma origem política que se confunda com o bolsonarismo. Há uma diferença crucial entre disputar votos em determinados setores da direita e ser, efetivamente, parte de um campo ideológico. O erro recorrente é tratar “conservadorismo eleitoral” como “identidade bolsonarista”.