
O governo Lula acompanhou com cautela o depoimento do senador Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos sobre o tarifaço. A avaliação é que o pré-candidato buscou “limpar” a percepção negativa deixada pelo episódio, sem efeitos práticos, repetindo argumentos ideológicos já apresentados em carta ao governo norte-americano.
Em pouco menos de cinco minutos, ele pediu a não aplicação da sobretaxação de 25% sobre produtos brasileiros e sugeriu a possibilidade de um novo presidente em 2027.
Aliados do Planalto classificaram a atitude como “desesperada”, afirmando que o tarifaço prejudicou a imagem do senador, apontado como “entreguista” e “traidor da pátria” por Lula e petistas, que retomaram vídeos antigos de Flávio comemorando anúncios de Donald Trump. Segundo interlocutores, a ida aos EUA seria uma tentativa de se desvincular dessa percepção negativa.
O governo brasileiro explica que a visita do senador ocorre em um contexto de consulta pública nos EUA e que não há expectativa de resultados imediatos. O argumento é que o processo é conduzido a nível de Estado e que a revisão de tarifas ainda depende de procedimentos formais conduzidos pelo USTR.
O ministro Márcio Elias, do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), acompanha diretamente as negociações com Jamieson Greer, responsável pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA.
A proposta de sobretaxação de 25% está sendo avaliada no contexto de política comercial americana e deve ser decidida oficialmente até 15 de julho.

O Planalto entende que a chance de alteração antes desse prazo é remota, mas se houver mudança, dependerá principalmente da pressão comercial interna e de grandes multinacionais que já se manifestaram contra a imposição, como Coca-Cola, eBay e Tesla. Essa movimentação é avaliada como mais eficaz do que qualquer tentativa do senador de influenciar o processo.
Há ainda uma dimensão política na análise americana. As eleições legislativas nos EUA, previstas para o final do ano, influenciam decisões de Trump sobre política econômica, e o governo atual busca evitar medidas que possam gerar contrapontos ou tensões antes do pleito.
Apesar do esforço de Flávio, interlocutores do Planalto afirmam que o episódio do tarifaço será lembrado internamente como um fator de desgaste político, mas não suficiente para alterar o cenário eleitoral brasileiro. A avaliação é que a pressão ideológica do senador dificilmente terá efeitos sobre o processo formal nos EUA.
No final, o governo mantém a narrativa de que a negociação com os Estados Unidos segue independente de tentativas de influências externas e que a decisão final sobre a sobretaxação dependerá da avaliação técnica do USTR e das forças de mercado que avaliam os impactos de 4.187 produtos brasileiros sujeitos à medida.