O senador usou uma live no YouTube para lançar proposta de zona de livre comércio com os Estados Unidos e transformar o fórum comercial americano em palanque contra o governo federal. A iniciativa, apresentada sem análise de impacto para a indústria nacional, levanta questões sobre seus reais objetivos.
- Flávio Bolsonaro propôs que o Brasil entre no bloco USMCA e renomeie o NAFTA para AFTA, defendendo livre‑comércio com EUA, Canadá e México.
- Em live, o senador acusou o governo Lula de “lamber as botas da China” e afirmou que viajou a Washington para proteger o Brasil de tarifas americanas.
- A proposta foi feita um dia após sua participação em audiência do USTR, que avaliava a possibilidade de Trump impor tarifa de 25 % sobre exportações brasileiras.
- A iniciativa combina agenda comercial com críticas ao presidente Lula, num cenário de risco de novas tarifas que afeta exportadores nacionais.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) propôs, em transmissão ao vivo pelo YouTube no dia 8 de julho, a criação de uma zona de livre comércio entre o Brasil e os Estados Unidos, sugerindo a inclusão do país em uma versão atualizada do USMCA, que batizou de AFTA. A proposta foi feita um dia após sua participação em uma audiência do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), convocada para discutir a possibilidade de novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Durante a live, o senador acusou o governo Lula de “lamber as botas da China” e afirmou ter ido a Washington para proteger o Brasil “das tarifas e do Lula”, misturando a agenda comercial com ataques políticos diretos ao governo federal.
Flávio Bolsonaro propõe livre comércio com EUA e ataca Lula
Na transmissão, Flávio Bolsonaro defendeu que o Brasil se integre ao bloco comercial formado por Estados Unidos, Canadá e México, hoje regido pelo USMCA, sucessor do antigo NAFTA. A proposta foi apresentada com uma sugestão de renomeação: “Ao invés do antigo NAFTA, a gente pode cortar essa letrinha ‘N’ e passar a usar o AFTA, o Acordo de Livre Comércio das Américas, onde o Brasil pode sim se incluir. As nossas economias, EUA e Brasil, são complementares. A gente tem uma avenida de oportunidade para trazer investimentos americanos para cá”, disse o senador. Ele acrescentou que, caso eleito, pretende levar a proposta adiante por meio de sua “equipe técnica”, em negociações com o governo americano.
Os ataques ao governo Lula percorreram toda a transmissão. Flávio acusou a gestão petista de “colocar a ideologia acima dos interesses do povo brasileiro” e afirmou que o presidente, “a todo momento, taca pedra nos EUA e lambe as botas da China”. A retórica é conhecida no campo bolsonarista, mas o cenário em que foi acionada desta vez tem peso adicional: o senador acabara de participar, na véspera, de uma audiência formal do USTR sobre possíveis novas tarifas americanas a produtos brasileiros, um processo que afeta diretamente exportadores nacionais, independentemente de quem governa o país.
O que Flávio Bolsonaro disse na audiência nos EUA
A audiência do USTR foi convocada para discutir a hipótese de o governo de Donald Trump aplicar uma tarifa de 25% sobre importações de produtos brasileiros. Flávio Bolsonaro foi um dos participantes e dispôs de cinco minutos para se pronunciar. Segundo apuração d’O Globo, o senador usou o tempo para fazer um discurso político, com ataques ao governo federal e ao Supremo Tribunal Federal.
Ainda de acordo com O Globo, Flávio teria reforçado o teor de um dossiê de 86 páginas enviado previamente ao governo americano, no qual argumentava que haveria um “erro de timing” na aplicação das novas tarifas, dada a proximidade das eleições presidenciais brasileiras. Na mesma audiência, o senador citou escândalos de corrupção, como o mensalão, o suposto envolvimento do filho do presidente Lula em fraudes relacionadas a beneficiários do INSS e o caso do Banco Master. Também defendeu o Pix, atribuindo sua criação ao governo Bolsonaro. O resultado foi um pronunciamento que pouco tratou das tarifas em si e muito serviu de plataforma para a disputa eleitoral doméstica, travada em solo americano e diante de autoridades comerciais dos Estados Unidos.
Contexto da proposta e críticas à política externa
Flávio Bolsonaro declarou, sem rodeios, que foi a Washington para proteger o Brasil “das tarifas e do Lula”, colocando o governo federal no mesmo nível de ameaça que uma política protecionista estrangeira. Para sustentar a viabilidade de sua proposta, o senador citou o acordo firmado em fevereiro entre o governo republicano de Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei, que resultou em redução de tarifas para centenas de produtos argentinos e garantiu à Argentina acesso a minerais críticos. “O presidente Milei da Argentina conseguiu um acordo com os EUA que, para centenas de produtos, a tarifa é zero”, afirmou Flávio, apresentando o alinhamento ideológico com Washington como condição suficiente para obter benefícios comerciais.
A comparação com a Argentina de Milei é reveladora da lógica que orienta a proposta. O senador não apresentou estudos sobre os impactos de uma abertura comercial irrestrita para a indústria brasileira, nem discutiu os setores que poderiam ser afetados pela concorrência americana sem barreiras. O que ficou evidente foi a crítica ao posicionamento do governo Lula, descrito por Flávio como “antiamericano” por priorizar o alinhamento com Pequim. As declarações ocorrem em um momento de acirramento das tensões geopolíticas entre EUA e China, no qual o Brasil, maior parceiro comercial chinês na América do Sul, ocupa uma posição estratégica que qualquer proposta de reorientação comercial drástica precisaria levar em conta.
Implicações políticas e econômicas da proposta
A proposta de Flávio Bolsonaro foi apresentada como uma iniciativa de atração de investimentos, mas sua construção revela uma função prioritariamente política: desgastar o governo Lula na cena internacional e antecipar uma plataforma de política externa para a disputa presidencial. A menção a uma “equipe técnica” que só existiria “caso eleito” confirma que a proposta não é uma iniciativa parlamentar em curso, mas um elemento de campanha embrulhado em linguagem de política comercial.
“Todo mundo está vendo o vexame que Lula está passando na área internacional. A todo momento ele lambe as botas da China e taca pedra nos EUA.”
Do ponto de vista econômico, uma zona de livre comércio com os Estados Unidos, sem análise setorial e sem mecanismos de proteção à indústria nacional, carrega riscos concretos para segmentos como manufatura, calçados e têxteis, historicamente vulneráveis à concorrência americana. A China, por sua vez, é o principal destino das exportações brasileiras, e qualquer reorientação brusca de alinhamento comercial teria consequências diretas na balança comercial do país. Nenhum desses pontos foi abordado por Flávio Bolsonaro na live ou, segundo O Globo, na audiência do USTR. O que a iniciativa deixa claro é que a disputa sobre a orientação da política externa brasileira, se deve mirar Washington ou diversificar parcerias, já está posta como um dos eixos centrais da corrida presidencial de 2026.
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