Flávio Bolsonaro chega à disputa presidencial depois de uma pré-campanha construída em torno de uma retórica de confronto que, até aqui, não produziu um projeto de país nem uma concepção clara de governo. A anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, o confronto com o Supremo Tribunal Federal, a oposição a Lula e a defesa do legado de Jair Bolsonaro definiram suas principais bandeiras, mas não respondem à questão central de uma candidatura: como pretende usar o poder para atender às necessidades do conjunto dos brasileiros, para além das disputas políticas que até aqui orientaram sua trajetória.
Ao definir sua entrada na disputa, o próprio senador resumiu essa orientação ao dizer que se tratava de uma “candidatura de protesto”. A definição, porém, expõe o problema central dessa estratégia: mobilizar-se contra adversários, instituições e governos não substitui a apresentação de um projeto de poder. É justamente essa diferença que o início oficial da disputa coloca agora sob exame.
O plano de governo de Flávio começou a ser divulgado às vésperas da abertura oficial da corrida eleitoral. O calendário não é o problema; qualquer programa eleitoral pode legitimamente amadurecer ao longo desse processo. O que importa é o que seu conteúdo revela sobre o projeto que pretende sustentar.
Na educação, recupera políticas já testadas no (des)governo do seu pai e acrescenta um programa de remuneração para alunos que ajudam colegas com dificuldades; especialistas já apontaram os limites de tratar um problema estrutural a partir de uma única metodologia. No campo institucional, propõe reduzir a competência criminal do Supremo, criar quarentena para ex-ministros antes de chegarem à Corte e limitar decisões monocráticas — medidas que merecem debate técnico próprio, mas que também prolongam, em linguagem de programa de governo, o mesmo conflito com o tribunal que esteve no centro dos embates do bolsonarismo.
A proposta de fim da reeleição presidencial é uma das poucas medidas que estabelecem distância explícita da trajetória de Jair Bolsonaro. No conjunto, o plano confirma o diagnóstico da pré-campanha: a identidade de combate chegou muito antes da formulação programática, e o documento, lido de perto, ainda parece menos uma concepção abrangente de governo do que uma tentativa de dar forma administrativa a convicções que já existiam.