Há frases que escapam como um lapso. E há frases que revelam um projeto de sociedade.
Quando Flávio Bolsonaro afirmou que teve duas filhas “exatamente para isso”, para que cuidem dele quando envelhecer, não fez apenas uma piada infeliz. Expôs, em poucas palavras, uma visão de mundo na qual meninas já nascem com um destino previamente traçado: servir, cuidar, abdicar.
O mais preocupante é que essa fala não surge isoladamente. Ela dialoga com uma tradição profundamente patriarcal que transforma o cuidado — atividade essencial para a sobrevivência da sociedade — em obrigação feminina. Não como uma escolha, mas como uma expectativa.
Enquanto meninos são incentivados a liderar, conquistar espaços e construir patrimônio, meninas continuam sendo educadas para sustentar emocionalmente famílias inteiras. Crescem ouvindo que são mais sensíveis, mais dedicadas, mais aptas ao cuidado. O resultado é conhecido: mulheres acumulam jornadas invisíveis, interrompem carreiras, assumem o trabalho doméstico não remunerado e envelhecem com menos renda e menos autonomia.
Mas existe uma violência ainda mais profunda nessa lógica.