
Flávio Bolsonaro leu neste sábado (11), durante uma transmissão ao vivo, uma carta atribuída ao pai, Jair Bolsonaro, com um apelo para que as “possíveis diferenças” dentro do bolsonarismo sejam deixadas de lado. O documento tenta colocar ordem na pré-campanha do senador após o racha público com Michelle Bolsonaro, mas acaba produzindo o efeito contrário: expõe que Flávio ainda depende da assinatura do pai até para pedir obediência aos próprios aliados.
O senador afirmou que visitou Jair Bolsonaro pela manhã e apresentou um balanço de sua campanha. Depois, assumiu diante da câmera o papel que parece exercer com mais desenvoltura: o de leitor oficial das ordens paternas. Na carta, Jair chama Flávio de “meu pré-candidato” e “meu porta-voz” e convoca o grupo a trabalhar por ele.
A expressão “possíveis diferenças” funciona como um eufemismo constrangedor para uma crise que já teve acusações públicas de humilhação, desrespeito e “punhalada”. Michelle deixou a presidência do PL Mulher após o confronto com o enteado, retirando da campanha uma liderança com influência própria entre mulheres evangélicas e conservadoras — justamente um dos segmentos em que Flávio enfrenta maior dificuldade.
A carta não anuncia reconciliação, não registra apoio de Michelle e não responde a nenhuma das acusações feitas por ela. Também não apresenta qualquer gesto de Flávio para reconstruir a relação. O método escolhido para encerrar a crise é mais simples: Jair Bolsonaro manda os outros esquecerem o assunto e fecharem com o filho.
A intervenção entra como uma operação de contenção de danos, mas revela o tamanho do dano. Um pré-candidato capaz de liderar seu campo político deveria reunir aliados, responder às críticas e impor uma direção. Flávio precisa que o pai escreva uma carta para informar ao bolsonarismo que ele deve ser levado a sério.
O próprio texto o reduz à condição de “porta-voz”. Não é o formulador, o comandante ou a nova liderança do movimento: é o mensageiro escolhido pelo chefe anterior, que é o próprio pai. A cena transforma o lançamento de uma candidatura presidencial em uma espécie de leitura de testamento político, com o herdeiro pedindo silêncio na sala enquanto apresenta as instruções do patriarca.
Não é sequer a primeira vez que Jair Bolsonaro precisa entrar em campo para garantir a candidatura do filho. Em dezembro de 2025, outra carta foi usada para reafirmar a escolha de Flávio em meio à resistência de aliados e à disputa com Michelle. Meses depois, o senador continua precisando da mesma procuração para sustentar a própria autoridade.
A nova manifestação tenta vender unidade, mas confirma uma dependência. No bolsonarismo, a voz que ainda distribui posições, cobra lealdade e encerra discussões é a de Jair Bolsonaro. Flávio aparece como candidato porque o pai o escolheu, avança porque o pai o empurra e pede apoio lendo uma carta do pai. A operação criada para fortalecê-lo acaba lembrando que, sem Jair, ele ainda não consegue falar nem em nome da própria família.