“Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.”
– Provérbio popular brasileiro
Nove semanas até o primeiro turno das eleições e nada está garantido. A ligeira vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro nas mais recentes pesquisas de opinião não deve nos iludir. Quem decidiu profetizar uma vitória de Lula no primeiro turno deveria ter mais autocontenção. O autoengano – uma forma de aquietar a mente – é um erro fatal. Não podemos esquecer a lição mais importante das eleições de 2022, quatro anos atrás: a subestimação da potência e capilaridade de influência da extrema-direita é imperdoável. A diferença foi tão estreita que, se a eleição tivesse sido uma ou duas semanas depois, Bolsonaro poderia ter sido eleito. Existe uma margem de incerteza sobre o desfecho eleitoral, porque as pesquisas têm dificuldades variadas em captar a votação do bolsonarismo. Os perigos que ameaçam a reeleição de Lula são múltiplos. O exemplo do dia é a decisão monocrática de André Mendonça, ministro indicado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a Polícia Federal a abrir um inquérito oficial para investigar Fábio Luís, o Lulinha, filho de Lula, por suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Muito mais virá. A luta política será de máxima intensidade e devemos nos preparar para tudo.
22.07.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sanção do Projeto de Lei de linhas de crédito, de 2026, que destina recursos a linhas de crédito do Programa Brasil Soberano, no Palácio do Planalto, Brasília – DF.
(Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)
O mapa político da América Latina desenha um contexto. A extrema-direita venceu as eleições presidenciais em 2025 no Equador e na Bolívia, e parlamentares na Argentina. Já em 2026 os aliados de Trump, Kast, Fujimori e de la Espriella venceram no Chile, Peru e Colômbia. Este ano se iniciou com uma agressão militar fulminante contra a Venezuela, que culminou com o sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores, algo sem precedentes. Impossível diminuir o iminente perigo que ameaça Cuba. Os insultos de Milei na Convenção da candidatura de Flávio Bolsonaro sinalizam uma decisão de protagonismo. Não fosse o bastante, seria irrealista diminuir o impacto das futuras intervenções de Trump após o novo tarifaço. Os EUA poderão até contestar a lisura do processo eleitoral se Lula vencer, o que não é um perigo menor. A guerra cultural nas redes sociais se desenvolve ininterrupta e vertiginosamente. Apostar na regulação das condições de disputa pela Justiça Eleitoral desconsiderando a ameaça de manipulações pela inteligência artificial seria irreparável.
Não deveríamos nunca esquecer que serão eleições gerais. A eleição simultânea da presidência e de governadores, deputados federais e senadores é um fator inescapável na avaliação da conjuntura. Sem palanques regionais fortes, a eleição presidencial é muito mais incerta. A possibilidade de eleger governadores de esquerda é dramaticamente minoritária: a previsão mais provável se reduz ao Piauí, com Rafael Fonteles. Elmano de Freitas no Ceará terá uma disputa duríssima com Ciro Gomes, que contará com o apoio do bolsonarismo. Jerônimo Rodrigues ainda está em empate técnico contra ACM Neto na Bahia. O PT terá candidatos próprios em somente oito dos 26 Estados além do Distrito Federal. Esta tática obedeceu ao cálculo de tentar neutralizar um alinhamento “nacional e vertical” de alguns partidos do Centrão com o bolsonarismo, em especial, no Nordeste, onde em média as pesquisas indicam uma votação em Lula entre 55% e 60% no primeiro turno. Mas a dura e cruel realidade é que, nas atuais condições, Lula não tem maioria no triângulo estratégico do Sudeste. A atual vantagem em Minas Gerais não compensa a diferença a favor do bolsonarismo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eduardo Paes está em primeiro lugar no Rio de Janeiro, mas a candidatura de Garotinho pode alavancar um segundo turno contra Douglas Ruas. A hipótese de uma vitória de Tarcísio em primeiro turno não é descartável. No Sul, Lula está atrás de Flávio Bolsonaro em todos os Estados. A boa notícia é a vantagem de Juliana Brizola sobre Zucco e de Manuela d’Ávila sobre Van Hatten. Não é sequer razoável duvidar da vantagem que o bolsonarismo vai arrastar no Centro-Oeste, o reduto da influência do agronegócio. Do Norte, a única expectativa da candidatura Lula repousa na aliança com o MDB da família Barbalho. Resumo da ópera: a batalha será duríssima e a indefinição do desenlace não é pequena.