Marco Feliciano pediu publicamente que Flávio Bolsonaro se pronuncie sobre a suposta “conspiração evangélica” que estaria gerando desgaste no segmento.
O pedido surge no contexto de crise política e familiar entre Flávio e a ex‑primeira‑dama Michelle Bolsonaro.
A tensão aumentou após a saída de Michelle da presidência do PL Mulher, acusando Flávio de tentar enfraquecê‑la politicamente.
Feliciano, em defesa de Michelle, cobrou de Flávio uma postura conciliadora para evitar danos irreversíveis ao movimento.
O deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano fez um apelo público ao senador Flávio Bolsonaro após o agravamento da crise entre lideranças evangélicas e o núcleo político do parlamentar. Em mensagem publicada nas redes sociais nesta quarta-feira (1º), Feliciano alertou para o desgaste crescente da imagem de Flávio junto ao segmento religioso, considerado um dos principais pilares do eleitorado bolsonarista.
“Meu irmão Flavio Bolsonaro, vc não fará nada com estes malucos q inventam uma conspiração evangélica contra vc? Isso está causando um desgaste tremendo no segmento. Faça um pronunciamento, antes que o desastre seja irreversível.”
A manifestação pública de Feliciano ocorre em meio ao aprofundamento da crise política e familiar envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, episódio que provocou repercussão dentro do Partido Liberal (PL) e entre lideranças religiosas alinhadas ao bolsonarismo.
Racha familiar e crise no PL
O estopim da crise foi a saída formal de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher, após dias de intensos confrontos políticos e pessoais envolvendo aliados do senador. Segundo relatos de bastidores, a ex-primeira-dama acusou Flávio de tentar enfraquecê-la politicamente e de atuar para limitar sua participação nas decisões partidárias e eleitorais.
Michelle também tornou públicas divergências familiares, afirmando, em vídeos divulgados nas redes sociais, que o senador frequentava a residência do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas evitava contato direto com ela.
Diante do episódio, Marco Feliciano assumiu posição de defesa da ex-primeira-dama e classificou sua saída do comando do PL Mulher como um gesto de dignidade diante dos ataques sofridos. O parlamentar também cobrou publicamente que Flávio Bolsonaro adotasse uma postura conciliadora.
A alegada “conspiração evangélica”
A referência feita por Feliciano a uma suposta “conspiração evangélica” reflete um desconforto que, segundo lideranças religiosas, vinha se acumulando há meses dentro do partido.
Nos bastidores do campo conservador, setores evangélicos passaram a acusar integrantes do núcleo político mais próximo a Flávio Bolsonaro de tentar reduzir a influência de pastores e lideranças religiosas nas decisões estratégicas da legenda. Para parte desse grupo, o isolamento político de Michelle Bolsonaro, que mantém forte identificação com o eleitorado evangélico, seria um dos sintomas desse processo.
Outro episódio que ampliou o desgaste ocorreu durante a repercussão envolvendo o filme “Dark Horse“. Na ocasião, circularam entre grupos conservadores teorias e críticas associando o nome de Flávio Bolsonaro a conteúdos considerados incompatíveis com valores cristãos, aumentando a pressão sobre o senador junto às bases religiosas.
Perda de apoio entre evangélicos
O tensionamento político ocorre paralelamente a sinais de enfraquecimento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro entre eleitores evangélicos.
Levantamentos de opinião indicaram uma redução significativa do apoio ao senador nesse segmento, ao mesmo tempo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou sua presença entre eleitores religiosos. O movimento passou a ser interpretado por aliados como um alerta sobre a perda da hegemonia bolsonarista em parte das igrejas evangélicas.
Escândalo financeiro ampliou desgaste
Outro fator determinante para o afastamento de parte da base evangélica foi a repercussão da relação política e financeira entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, além das investigações e controvérsias envolvendo o Banco Master.
A associação do senador a escândalos financeiros produziu um impacto negativo sobre a imagem de integridade e moralidade que tradicionalmente sustenta o discurso político conservador junto ao eleitorado evangélico.
Pastores e denominações buscam alternativas
A crise também provocou movimentações entre importantes lideranças religiosas que historicamente apoiaram o bolsonarismo.
Integrantes ligados ao Ministério Madureira, um dos maiores segmentos da Assembleia de Deus, passaram a discutir alternativas políticas dentro da direita, incluindo aproximações com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
Outras lideranças, como o deputado federal Otoni de Paula e o bispo Robson Rodovalho, fizeram críticas públicas à viabilidade eleitoral de Flávio Bolsonaro diante do desgaste acumulado.
Nos bastidores, o pastor Silas Malafaia também teria manifestado preferência por uma eventual candidatura de Michelle Bolsonaro, avaliando que a ex-primeira-dama reuniria melhores condições para unificar o eleitorado evangélico.
Já lideranças da Congregação Cristã no Brasil e da Igreja Universal do Reino de Deus têm adotado posições mais cautelosas, buscando preservar interlocução com diferentes campos políticos.
Estratégia para conter a crise
Diante do enfraquecimento do apoio religioso, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro passou a investir em uma estratégia voltada diretamente ao eleitorado cristão. Entre as iniciativas adotadas estão o lançamento do slogan “Vai com fé” e a intensificação de discursos com referências à fé e à chamada “batalha espiritual”.
Apesar dos esforços, a crescente aproximação de importantes lideranças evangélicas com outros nomes da direita evidencia o aprofundamento da crise política enfrentada pelo senador em um dos segmentos historicamente mais fiéis ao bolsonarismo.