Flávio Bolsonaro lançou a iniciativa “Brasil por elas” para conquistar o apoio feminino.
A ação foi anunciada após uma discussão pública com Michelle Bolsonaro.
O programa será implementado em todo o território nacional.
O objetivo é melhorar a imagem do senador e ampliar sua base eleitoral entre as mulheres.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta transformar mulheres em vitrine eleitoral depois de entrar em crise pública com Michelle Bolsonaro, ser acusado pela madrasta de humilhação e ver o eleitorado feminino virar um dos principais gargalos de sua pré-campanha ao Palácio do Planalto.
O senador prepara para 15 de julho o lançamento do plano Brasil Por Elas, um pacote com propostas de segurança, renda, crédito, empreendedorismo, economia do cuidado, saúde da mulher e políticas para famílias atípicas. A agenda ganhou força após Michelle deixar a presidência do PL Mulher e se afastar da pré-campanha do enteado.
A operação política tem uma camada evidente de maquiagem: Flávio tenta ocupar, com posts e slogans, o espaço que Michelle ocupava com capilaridade real entre mulheres conservadoras e evangélicas. A ex-primeira-dama era tratada como ativo central para reduzir a rejeição feminina ao bolsonarismo. Depois da ruptura, a campanha passou a vender “escuta” e “acolhimento” justamente no momento em que o próprio senador foi acusado por ela de desrespeito e humilhação.
Flávio Bolsonaro empacota mulheres como solução para crise com Michelle
O plano Brasil Por Elas é coordenado por Daniella Marques (Republicanos), ex-presidente da Caixa Econômica Federal e um dos nomes cotados para a vice na chapa de Flávio. A escolha reforça a tentativa de entregar ao eleitorado uma imagem de campanha com rosto feminino, mesmo depois de a principal mulher do bolsonarismo eleitoral ter rompido com o pré-candidato.
O pacote ainda será incorporado ao programa de governo que deve ser apresentado à Justiça Eleitoral no registro da candidatura. Pelo calendário das Eleições de 2026 aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o prazo final para registro de candidaturas é 15 de agosto.
A escolha dos temas não é casual. Segurança pública e violência doméstica aparecem como eixo de sensibilização para mulheres, enquanto renda e crédito tentam dar verniz social a uma candidatura marcada pelo sobrenome Bolsonaro, pela crise com Michelle e pela disputa interna na extrema direita.
Postagens mostram Flávio tentando reescrever a própria imagem
Nas redes, Flávio passou a usar publicações sobre mulheres como peça de reposicionamento. Em uma delas, compartilhou vídeo de Daniella Marques e escreveu que “as mulheres terão um papel fundamental na reconstrução do Brasil”. A frase funciona como senha visual da nova fase: a campanha tenta trocar a imagem do herdeiro do bolsonarismo por uma embalagem de reconstrução feminina.
A publicação é relevante porque não aparece isolada. Ela surge depois de Michelle tornar pública a fratura familiar e política, e no mesmo período em que a pré-campanha de Flávio tenta convencer eleitoras de que o bolsonarismo, historicamente associado a ataques e menosprezo contra mulheres, agora teria uma agenda específica para elas.
Em outra postagem, o senador afirmou que cabe a quem disputa cargo eletivo convencer as mulheres e “quebrar preconceitos”. A construção é típica da defensiva bolsonarista: desloca o problema da prática política para a percepção das eleitoras, como se a rejeição feminina fosse fruto de preconceito contra a direita, e não consequência de falas, ataques e conflitos produzidos pelo próprio campo.
A tentativa de reposicionamento fica ainda mais explícita quando Flávio fala sobre feminicídio. Em publicação anterior, escreveu que “o feminicídio não começa no disparo” e associou o crime a sinais ignorados. O tema é grave e tem política pública própria, como o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, mas aparece na comunicação do senador como parte de uma sequência de conteúdos voltados a suavizar a imagem da pré-campanha.
Michelle Bolsonaro virou o problema que Flávio tenta esconder
A crise com Michelle não é lateral. A Fórum mostrou que Michelle abandonou o PL Mulher e agravou a crise na pré-campanha de Flávio. Sem ela no comando do núcleo feminino do partido, o senador perdeu a principal ponte simbólica com eleitoras evangélicas e conservadoras.
A ruptura começou depois de Michelle divulgar um vídeo em que relatou ter sido “humilhada”, “desrespeitada” e “maltratada” por Flávio. A Fórum também mostrou que o vídeo de Michelle implodiu Flávio nas redes e expôs a guerra pela herança política de Jair Bolsonaro.
O efeito já aparece em leitura de opinião pública. Em pesquisa AtlasIntel encomendada pela Bloomberg, a maioria dos entrevistados avaliou que Michelle foi “humilhada” por Flávio Bolsonaro, embora o resultado se inverta entre eleitores bolsonaristas. O dado ajuda a explicar por que a pré-campanha agora tenta correr atrás do eleitorado feminino com slogan, evento e promessa de programa.
Bolsonarismo fala de mulheres enquanto aliado diz que elas votam mal
A contradição ficou ainda mais exposta com Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em transmissão, ele afirmou que “mulheres votam mal”, principalmente as solteiras. A frase misógina atingiu Flávio no momento em que o senador tentava vender respeito ao voto feminino.
A Fórum registrou o ataque de Paulo Figueiredo contra Michelle e contra o voto das mulheres. Depois da repercussão, Flávio tentou se afastar do aliado e disse repudiar “veementemente” a declaração.
A resposta, porém, veio sob pressão. A Fórum mostrou que Flávio disse “respeitar muito” Michelle e repudiou Paulo Figueiredo durante encontro com mulheres bolsonaristas. Na prática, o senador precisou defender publicamente o eleitorado feminino depois de uma fala misógina vinda do próprio ecossistema político que sustenta sua candidatura.
O desgaste continuou. Em novo movimento, a Fórum mostrou que Paulo Figueiredo voltou a expor Flávio Bolsonaro ao relatar bastidores de uma declaração feita pelo senador no evento com mulheres.
Brasil Por Elas tenta virar cortina de fumaça eleitoral
O encontro de Flávio com lideranças femininas em Brasília não teve Michelle Bolsonaro nem Damares Alves (Republicanos-DF), duas figuras que poderiam dar lastro político ao gesto. A ausência reforçou a natureza defensiva da agenda: o senador reuniu apoiadoras para demonstrar força justamente porque a mulher mais importante do bolsonarismo partidário decidiu não aparecer.
Durante o evento, Flávio elogiou Michelle, disse que as portas seguem abertas e, ao mesmo tempo, voltou a criticá-la por ter compartilhado vídeo do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos-RJ) sobre uma suposta festa ligada a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O senador afirmou que Michelle estava “completamente desinformada” e negou relação com Vorcaro além do financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro.
O resultado é um contraste difícil de esconder. Nas postagens, Flávio fala em reconstrução, proteção e protagonismo feminino. Na crise real, briga com Michelle, reage a ela em público, tenta conter uma fala misógina de aliado e corre para montar um plano de campanha voltado às mulheres. O Brasil Por Elas, nesse contexto, nasce menos como programa consolidado e mais como operação de contenção de danos de um bolsonarismo que percebeu tarde demais o tamanho do buraco entre as eleitoras.