Na convenção que lançou Flávio à Presidência, o PL precisou fabricar um Jair digital para ocupar o palco. O avatar resolve a ausência física, mas expõe a dependência política do filho, as fissuras familiares e um novo problema jurídico.
A cena mais importante da convenção do PL não foi protagonizada pelo candidato que acabava de ser confirmado. Foi ocupada por um homem que não estava lá.
Na tarde de 25 de julho, no Mercado Pago Hall, na Arena Pacaembu, em São Paulo, uma reprodução digital de Jair Bolsonaro apareceu no telão para ungir Flávio Bolsonaro como seu sucessor. A primeira frase era também uma confissão involuntária sobre o estágio atual do bolsonarismo:
“Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu.”
Era uma simulação da imagem e da voz do ex-presidente produzida com inteligência artificial. O avatar afirmou que Bolsonaro estava preso e silenciado por uma decisão “injusta e arbitrária”, pediu que os apoiadores recebessem “de braços abertos” a pessoa escolhida para substituí-lo e concluiu: “O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.
O pai verdadeiro cumpre prisão domiciliar e está submetido a restrições judiciais. O filho verdadeiro precisava demonstrar que havia sido escolhido. Entre os dois, entrou um Bolsonaro sintético: voz de pai, rosto de pai, autoridade de pai e nenhuma resposta pública imediata sobre quem escreveu o texto, quem autorizou a fabricação ou quanto do discurso corresponde à vontade real do personagem reproduzido.
O vídeo original
A transmissão oficial do Partido Liberal permanece disponível no YouTube. O vídeo gerado por IA começa aproximadamente em 3h17min36s.
Na coleta realizada em 27 de julho, a transmissão do PL registrava aproximadamente 95 mil visualizações e 12 mil curtidas. A retransmissão no canal oficial de Flávio Bolsonaro passava de 245 mil visualizações e 47 mil curtidas. São números expressivos, mas não equivalem a pesquisa de opinião nem medem apoio fora das respectivas audiências.
O candidato era Flávio. O protagonista continuou sendo Jair
A convenção oficializou Flávio Bolsonaro às 14h07, segundo a cobertura do UOL. Estiveram presentes o governador Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo Nunes e o presidente argentino Javier Milei; Benjamin Netanyahu enviou uma mensagem em vídeo.
Ainda assim, o evento chegou sem vice definido e sem uma aliança nacional consolidada com os partidos do Centrão. Segundo a Associated Press, reuniu cerca de 500 pessoas e contou com poucos nomes de peso nacional além dos já alinhados ao bolsonarismo.
Michelle Bolsonaro não compareceu. Participou por vídeo e, segundo a AP, mencionou Flávio apenas uma vez. Sua ausência ocorreu depois de uma sequência pública de atritos familiares. Michelle acusou Flávio de ter sido grosseiro, de desrespeitá-la e de humilhá-la; Eduardo Bolsonaro também já havia criticado a ex-primeira-dama. Houve uma reconciliação pública antes da convenção, mas a fotografia política permaneceu incompleta.
A contradição central da candidatura apareceu no telão: Flávio precisa herdar Jair, mas não consegue substituí-lo. Quanto mais tenta provar que é o escolhido, mais demonstra que a candidatura ainda depende do pai para adquirir voz, imagem e autoridade.
O avatar não resolve esse problema. Ele o renderiza em alta definição.
O que dizem realmente as regras eleitorais
É necessário separar duas questões frequentemente misturadas nas redes.
As regras gerais sobre propaganda eleitoral e inteligência artificial são do Tribunal Superior Eleitoral, não do STF. O Supremo entra neste episódio por causa das restrições individuais impostas a Jair Bolsonaro no processo de execução penal.
A Resolução TSE nº 23.610/2019, alterada pelas resoluções nº 23.732/2024 e nº 23.755/2026, estabelece duas camadas diferentes:
- Conteúdo sintético utilizado em comunicação político-eleitoral deve informar, de maneira explícita, destacada e acessível, que foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada.
- Independentemente de autorização, é proibido empregar áudio ou vídeo sintético que crie, substitua ou altere imagem ou voz de pessoa viva, morta ou fictícia para favorecer ou prejudicar candidatura — a hipótese que a resolução chama de deepfake.
O vídeo começou avisando verbalmente que a imagem e a voz eram simuladas. Isso atende parte do dever de transparência. Entretanto, o aviso não encerra a discussão: a proibição do artigo 9º-C, parágrafo 1º, é autônoma e alcança material sintético usado para favorecer uma candidatura, mesmo quando autorizado.
Também não basta dizer que “a campanha ainda não começou”. A propaganda eleitoral geral só é permitida a partir de 16 de agosto, mas a própria resolução determina que conteúdos político-eleitorais divulgados na pré-campanha observem, quando aplicáveis, as normas sobre tecnologias digitais. A propaganda intrapartidária é permitida no período das convenções, desde que voltada à escolha interna e retirada posteriormente.
É justamente nessa fronteira que o caso será discutido: tratava-se apenas de comunicação interna de uma convenção ou de uma mensagem transmitida ao público, em canais de grande alcance, para favorecer uma candidatura já apresentada como presidencial?
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, protocolou representação no TSE alegando propaganda antecipada e uso irregular de inteligência artificial. Pediu multa de R$ 30 mil ao PL e a Flávio e a retirada do trecho das transmissões, segundo o SBT News.
Até as 18h36 de 27 de julho, não havia decisão de mérito do TSE sobre o episódio. Portanto, é incorreto afirmar que o vídeo já foi declarado ilegal, que a candidatura já foi punida ou que uma eventual cassação seria automática.
E o STF?
A discussão no Supremo é diferente.
Em decisão anterior à convenção, o ministro Alexandre de Moraes proibiu, até o fim do período eleitoral, visitas a Bolsonaro com finalidade político-eleitoral e a divulgação de manifestos político-eleitorais, inclusive por terceiros e independentemente do meio utilizado. O andamento público pode ser consultado na Execução Penal 169.
A ordem surgiu após a divulgação de uma “Carta aos Brasileiros”, episódio que também levou à suspensão das visitas de Flávio ao pai por 90 dias. Em outra medida, o direito geral de visitas de Bolsonaro foi restringido por 30 dias, com exceções para advogados e profissionais de saúde.
O PT apresentou ao STF uma notícia de possível descumprimento, sustentando que o avatar seria uma forma indireta de transmitir um manifesto eleitoral atribuído ao ex-presidente. Pediu que o material fosse encaminhado à Procuradoria-Geral da República e à Procuradoria-Geral Eleitoral.
Isso também não é uma decisão. Até o fechamento, não havia pronunciamento de Moraes declarando que o vídeo violou sua ordem.
Especialistas divergem. Uma corrente avalia que o conteúdo testa e possivelmente contorna a proibição de manifestos divulgados por terceiros. Outra sustenta que não se pode responsabilizar Jair Bolsonaro sem prova de que ele conheceu, participou ou concordou com a produção. A CNN Brasil reuniu as duas leituras.
Essa é uma lacuna factual decisiva: as reportagens consultadas não identificam publicamente o responsável técnico pelo vídeo, a ferramenta empregada, o autor do texto nem uma autorização documentada de Bolsonaro.
A equipe jurídica da campanha declarou que o aviso sobre o uso de IA afastaria a irregularidade e que o material não violaria a decisão de Moraes, conforme publicou a Itatiaia. Essa interpretação, contudo, ainda não foi validada pelo TSE nem pelo STF.
A reação virou parte da mensagem
Nas redes, o episódio foi rapidamente traduzido para a gramática do meme: “Bolsonaro holograma”, “candidato-fantoche”, “pai virtual” e a ironia de que o candidato seria tão artificial quanto o vídeo que o apresentou.
Em um tópico do r/brasil sobre o lançamento, um dos comentários mais repercutidos resumiu o tom negativo chamando o candidato de “tão fake quanto o vídeo de IA”. Em outra discussão, usuários debateram se a convenção estaria fora do alcance da proibição eleitoral. Já em comunidades de direita, apareceram tanto críticas ao risco jurídico quanto a interpretação de que a oposição tentaria “censurar” até uma reprodução declaradamente artificial.
Esses tópicos são amostras de comunidades específicas, não um retrato estatístico do eleitorado:
- Discussão sobre o lançamento da candidatura no r/brasil
- Debate sobre a legalidade do vídeo no r/brasil
- Reação à ação apresentada ao STF
- Discussão em comunidade de direita sobre o uso eleitoral do avatar
Embeds nativos do Reddit não são preservados pelo sanitizador do site; por isso, os tópicos aparecem como links editoriais. A repercussão em vídeo abaixo apresenta leituras conflitantes e não deve ser confundida com verificação factual.
A crítica política: o filho como fantoche do pai
A discussão sobre possíveis punições eleitorais
A reação favorável, apresentada como denúncia de censura
O clã está perdido?
A resposta honesta é: ainda não eleitoralmente, mas talvez politicamente aprisionado no próprio sobrenome.
Há sinais objetivos de fragilidade:
- A vice ainda não foi escolhida.
- Não há aliança nacional assegurada com os principais partidos do Centrão.
- Sem novas alianças, estimativas publicadas pelo UOL apontam que Flávio poderá ter cerca de 20% menos tempo de televisão e rádio que Lula.
- Michelle e os filhos de Bolsonaro disputam publicamente espaço, acesso ao pai e controle de seu capital político.
- A convenção foi construída em torno da imagem de Jair, não da biografia autônoma do candidato.
- A ausência física do pai precisou ser substituída por uma simulação.
- O recurso tecnológico abriu duas frentes jurídicas antes mesmo do início formal da propaganda eleitoral.
Mas chamar isso de colapso seria ignorar evidências em sentido contrário.
O Datafolha divulgado em 24 de julho mostrou Lula com 40% e Flávio com 32% no primeiro turno. Em um segundo turno, Lula aparecia com 48% e Flávio com 43%, com margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios entre 22 e 24 de julho, segundo a CNN Brasil.
Outra pesquisa, do instituto Real Time Big Data, publicada em 21 de julho, mostrou Lula com 45% e Flávio com 42% em uma simulação de segundo turno, configurando empate técnico dentro da margem, segundo o UOL.
Quarenta e três por cento não descrevem uma candidatura desaparecida. As transmissões digitais também revelam uma base capaz de produzir centenas de milhares de visualizações em poucos dias. A presença de Milei e as mensagens internacionais reforçam que o bolsonarismo ainda possui conexões e capacidade de mobilização.
O problema do clã não é falta de público. É falta de sucessão.
Jair Bolsonaro continua sendo o ativo político indispensável, mas está inelegível, preso e judicialmente limitado. Michelle possui capital próprio, mas disputa território com os filhos. Eduardo mantém influência digital, porém alimenta conflitos. Flávio é o candidato formal, mas precisa reafirmar constantemente que foi escolhido pelo pai.
A inteligência artificial oferece uma solução técnica para essa ausência: permite produzir quantos Bolsonaros forem necessários, com o texto, o cenário e a emoção desejados. Politicamente, porém, cada novo clone reafirma que nenhum herdeiro conseguiu ocupar sozinho o lugar do original.
Um Bolsonaro infinitamente replicável
O risco democrático não se limita a este vídeo de 53 segundos.
Se a técnica for normalizada, campanhas poderão criar uma quantidade ilimitada de mensagens atribuídas a pessoas presas, mortas, impedidas de participar ou simplesmente indisponíveis. Um político poderá aparecer apoiando candidatos diferentes em dezenas de cidades no mesmo dia. A autoria ficará difusa; a responsabilidade, sempre discutível; e o desmentido chegará depois da emoção.
O aviso “isto é inteligência artificial” é necessário, mas não resolve tudo. Um rótulo informa que a cena é falsa; não esclarece se a vontade política reproduzida é verdadeira.
Na convenção do PL, a tecnologia não inventou apenas um rosto ou uma voz. Inventou uma presença. Criou uma maneira de Jair Bolsonaro participar sem estar presente e de falar sem que se saiba se falou.
Flávio saiu oficialmente candidato. Jair continuou sendo o centro. E o bolsonarismo, que durante anos vendeu autenticidade, espontaneidade e comunicação direta, inaugurou sua nova fase com uma frase impossível de melhorar:
“Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu.”
Pela primeira vez, a própria propaganda fez a checagem.
Fontes e documentos
- Partido Liberal — transmissão oficial da convenção
- TSE — regras sobre uso de IA na campanha de 2026
- TSE — Resolução nº 23.732/2024
- TSE — Resolução nº 23.755/2026
- STF — andamento da Execução Penal 169
- CNN Brasil — judicialização e divergência de especialistas
- SBT News — medidas apresentadas ao TSE e ao STF
- Itatiaia — posição da equipe jurídica da campanha
- Associated Press — convenção, público, ausências e alianças
Nota de método: a repercussão em redes foi tratada como amostra qualitativa. Visualizações, curtidas e votos mudam continuamente e não foram usados como pesquisa de opinião. Não foi localizado, até o fechamento, documento público que identificasse o produtor, a ferramenta ou uma autorização de Jair Bolsonaro para o vídeo.