Imagine um eleitor que precisa atravessar a cidade para votar e, na noite de 24 de outubro, lê no telefone uma notícia revestida da autoridade dos números: Flávio Bolsonaro tinha 51% das intenções de votos válidos; Lula, 49%. A pergunta o acompanha: vale enfrentar ônibus, trânsito e filas se o desfecho já parece decidido?
Às 18h32 daquele sábado, o Datafolha divulgou justamente esses percentuais, embora reconhecesse empate técnico. Quaest, AtlasIntel e outros levantamentos também colocavam Flávio numericamente à frente. No domingo, 25, as urnas deram 51,79% a Lula e 48,21% ao adversário. A autoridade de vários institutos esbarrava na decisão de milhões de pessoas.
Penso sobretudo naquele cidadão para quem votar custa mais do que alguns minutos. A trabalhadora que depende de duas conduções, o idoso que precisa de companhia, a mãe que reorganiza o cuidado dos filhos. Diante da derrota anunciada, a dúvida pode tornar-se insistente: por que sacrificar o domingo por uma escolha aparentemente inútil?
O próprio Datafolha identificou que 24% do eleitorado apresentava propensão média ou baixa a comparecer, considerando distância da seção e participação no primeiro turno. Nesse grupo, Lula marcava 52% e Flávio, 48%; entre os mais propensos, a relação se invertia. O instituto mediu os obstáculos ao comparecimento. Faltou considerar quanto uma manchete poderia agravá-los.
No segundo turno, 30,5 milhões de brasileiros se abstiveram, embora a ausência tenha caído de 21,08% para 19,22% entre os turnos. Não sabemos quantos foram influenciados pelas sondagens. Mas também seria intelectualmente preguiçoso ignorar a pergunta: quantos deixaram de sair de casa porque acreditaram que sua participação já nada modificaria?