
Alvo de operação da Polícia Federal nesta quinta-feira (9), o publicitário Thiago Miranda é apontado como peça-chave na aproximação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Segundo a investigação, Miranda apresentou os dois no fim de 2024 e atuou na intermediação de pagamentos feitos por Vorcaro a um fundo nos Estados Unidos que seria usado para patrocinar o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro.
A defesa do publicitário, ex-sócio de Leo Dias, nega irregularidades. Em nota enviada ao Estadão, afirmou que refuta “de forma categória, a prática de qualquer ilegalidade por seu constituinte” e sustentou que Miranda não praticou “qualquer ato criminoso”.
A PF investiga a suspeita de que o publicitário tenha participado da contratação de influenciadores para atacar o Banco Central e de ações para coagir jornalistas e adversários de Vorcaro. Os aparelhos apreendidos com Miranda também podem trazer novos elementos sobre a relação do empresário com Flávio Bolsonaro.
Diálogos do celular de Miranda, revelados pelo Intercept Brasil e confirmados pelo Estadão, indicaram que ele marcou encontros entre Flávio e Vorcaro e cobrou o banqueiro por pagamentos atrasados. As conversas já estavam em poder da PF a partir do celular apreendido de Vorcaro.
As mensagens também apontaram que Flávio acertou diretamente com Vorcaro pagamentos de R$ 134 milhões, sob a justificativa de patrocinar a cinebiografia de seu pai. Os valores foram destinados a um fundo sediado nos Estados Unidos e gerido por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A PF pediu a abertura de inquérito para apurar se parte do dinheiro foi desviada para financiar a permanência de Eduardo no exterior.

Segundo pessoas próximas a Miranda, ele já mantinha boa relação com Flávio Bolsonaro havia anos. À PF, o publicitário disse ter conhecido Vorcaro mais recentemente, por meio de um empresário de Minas Gerais, durante negociações para a venda de participação no portal Léo Dias, quando ainda era sócio.
A investigação afirma que Miranda se tornou um aliado estratégico de Vorcaro. Ele teria sido acionado para ações em redes sociais, levantamento de informações contra desafetos e obtenção de dados sigilosos sobre jornalistas. Fundador da agência MiThi, o empresário virou alvo da 10ª fase da Operação Compliance Zero.
Na decisão que autorizou a ofensiva, o ministro André Mendonça, do STF, afirmou que Miranda estaria “diretamente envolvido no recrutamento de influenciadores e jornalistas” por meio de propostas financeiras bancadas com recursos ligados ao esquema fraudulento relacionado ao Banco Master. De acordo com a PF, as ofertas poderiam chegar a R$ 2 milhões e envolver contratos com cláusulas de confidencialidade.
A apuração também aponta que, em caso de recusa, informações privadas protegidas por sigilo legal poderiam ser usadas “para fins intimidatórios e ameaçadores”. O documento cita indícios de acesso indevido a dados privados e busca de informações familiares para coação.
Outro ponto investigado é a origem dos recursos usados por Miranda. Segundo a decisão, ele teria utilizado dinheiro recebido pela compra de parte do portal Léo Dias. Os valores, de acordo com a PF, eram repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa de Vorcaro já citada por suspeita de crimes financeiros e lavagem de dinheiro.