Em outubro de 2026, uma imagem publicada no canal oficial do Partido Liberal pôs Flávio Bolsonaro diante de uma pergunta antiga: por que a política contemporânea volta a buscar a linguagem visual dos fascismos? O rosto do senador, em preto e branco, aparecia cercado pela expressão “Tropa do Flávio”, repetida ao fundo. A composição lembrava uma propaganda de 1934, na Itália do ditador Benito Mussolini, com o rosto severo rodeado por “SI”, durante um plebiscito controlado pelo regime. O PL retirou a peça do ar e negou qualquer intenção de referência. O historiador Odilon Caldeira, ouvido pelo ICL Notícias, considerou a semelhança evidente, mas tratou como hipótese a ideia de uma provocação deliberada.
Essa ressalva importa. Uma imagem não prova, por si só, a intenção de quem a publicou, muito menos transforma automaticamente um partido ou seus eleitores em fascistas. Mas a coincidência visual, como a chamou o PL, tampouco apaga a história que ela convoca. A pergunta não é se o Brasil de 2026 é a Itália de 1934. Não é. A pergunta é por que a promessa de um líder que encarna a nação, cercado por uma tropa que repete seu nome, continua sendo politicamente reconhecível.
Mussolini e Hitler não chegaram ao poder por uma mesma estrada nem num único salto. Mussolini fundou o Fasci Italiani di Combattimento (Fachos Italianos de Combate, futuro Partido Nacional Fascista) em 1919 e, depois da Marcha sobre Roma, tornou-se primeiro-ministro em 1922. Na Alemanha, Hitler tentou um golpe em 1923, fracassou, e depois disputou eleições para corroer a República de Weimar por dentro. Nomeado chanceler em janeiro de 1933, valeu-se de manobras políticas, propaganda e violência para desmontar a democracia parlamentar. Em ambos os casos, a destruição das instituições foi gradual e contou com alianças de elites que imaginaram poder usar a força do movimento sem serem tragadas por ela.
O fascismo, em sentido histórico, não é apenas um governo severo, uma fala grosseira ou uma bandeira nacional. É uma política ultranacionalista e autoritária que subordina direitos individuais à ideia de uma comunidade nacional homogênea; promete restaurar uma pátria supostamente humilhada; transforma adversários e minorias em ameaças; e normaliza a violência como instrumento de purificação e unidade. O líder afirma falar pelo povo inteiro – tal qual Flávio Bolsonaro fez na sabatina da Globo – enquanto o pluralismo passa a ser descrito como fraqueza ou traição. A camisa, o braço estendido e a marcha são sinais visíveis. Mais persistente é a gramática que os torna plausíveis.
No Brasil, essa gramática não precisou ser importada pronta. Nos anos 1930, a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado e inspirada nos fascismos europeus, popularizou o lema “Deus, Pátria e Família”. Décadas depois, Jair Bolsonaro recuperou a fórmula em campanhas e aparições públicas. A continuidade não significa identidade: o integralismo pertenceu a outra conjuntura e o bolsonarismo não é uma cópia literal. Mas o retorno do lema faz lembrar que o fascismo brasileiro teve raízes próprias, adaptadas à religião, ao nacionalismo, à hierarquia social do país e suas heranças perversas da longa e sombria noite da escravidão.