Mentir é tão natural aos Bolsonaros que ninguém mais se ocupa de desmenti-los. Quando da carta ginasial que o pai escreveu dentro do cárcere domiciliar para que o filho 01 lesse publicamente, de pronto deflagrou-se discussão sobre a legalidade do ato, cogitando-se violação de norma restritiva pelo condenado. Pelos termos garatujados, a mídia constatou que Flávio é mesmo o candidato da família – Michelle que se emende. Ninguém se ateve a um detalhe contido nos garranchos: a referência ao “empobrecimento” atual do povo brasileiro.
Jair Bolsonaro não mereceria resposta séria, pela pobreza argumentativa de suas manifestações e por sua notória proficiência em fake news. Mas a questão do “empobrecimento” rende um histórico interessante. No mundo não-fictício, desde o Plano Real, o único período em que a população brasileira empobreceu foi justamente durante o governo do capitão.
Nos anos FHC, de 1995 a 2002, o valor nominal do salário mínimo subiu de 70 para 200 reais, com ganho real entre 44,3% e 50,9%. O foco inicial de Fernando Henrique não era uma expansão agressiva, mas impedir que a inflação corroesse o salário logo após o Plano Real. Apesar do crescimento econômico modesto do país na década de 1990, o salário mínimo conseguiu ganho real porque partiu de uma base bastante desvalorizada pelos anos de hiperinflação.
Os dados levantados pela coluna são do Ipeadata e do Dieese.
Nos governos Lula I e II, de 2003 a 2010, o mínimo alcançou 510 reais, perfazendo-se um aumento real de 57,8%. Foi o período de maior enriquecimento real da base salarial da história recente do país. Beneficiaram-se os trabalhadores do forte crescimento do PIB global – 7,5% em 2010 – e do superciclo das commodities, que turbinou a arrecadação e viabilizou os repasses diretos ao piso salarial, mediante a política de reajustes acima da inflação implantada pelo governo.