No dia 17 de abril de 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, um voto ecoou com força singular. O pronunciamento do então deputado Jair Messias Bolsonaro, dedicando seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, não foi apenas um momento de choque para os defensores dos direitos humanos; foi o prenúncio de uma transformação profunda na cultura política brasileira.
Aquele episódio revelou um fenômeno que muitos círculos intelectuais e políticos vinham subestimando: a ascensão meteórica e barulhenta de ideias reacionárias e de extrema direita. Valores e discursos antes restritos às margens do debate público – baseados no anticomunismo virulento, no nacionalismo exacerbado, na negação da ciência e no ataque explícito a minorias – passaram a ocupar o centro do palco e a ser naturalizados no vocabulário cotidiano. O que parecia impensável após a redemocratização do país tornou-se a nova norma.
Durante décadas, analistas defenderam a tese de que o avanço tecnológico, o amadurecimento econômico e a estabilização da democracia liberal esvaziariam o conteúdo emocional e ideológico da política. Acreditava-se que as paixões políticas seriam substituídas por uma gestão puramente técnica e racional do capitalismo.
A história recente do Brasil e do mundo provou o contrário. A hegemonia do modelo neoliberal, longe de trazer estabilidade moral ou social, aprofundou a concentração de riqueza, precarizou o trabalho e gerou uma crise continuada de perspectivas de vida para as maiorias. Em vez do fim das ideologias, o que emergiu foi um sentimento generalizado de desmoronamento moral e econômico. É nesse cenário de desalento que as correntes reacionárias encontraram o terreno fértil para florescer, resgatando bandeiras do conservadorismo religioso, do autoritarismo e da intolerância.
A eficácia desse novo bloco político e social no Brasil reside em uma operação dupla de comunicação e identidade. Para as massas empobrecidas e desestruturadas pelas crises econômicas, a nova extrema direita apresentou-se como uma alternativa antissistema. Ela ofereceu uma narrativa simplista que culpa a própria democracia liberal, os direitos sociais e os movimentos identitários – como feministas, defensores de direitos humanos, ambientalistas e a população LGBTQIA+ – pelas dificuldades do dia a dia. Os direitos conquistados por minorias passaram a ser apontados como a causa da crise moral.