


Entre 27 de julho e 3 de agosto, a sucessão de Jair Bolsonaro deixou de ser apenas uma disputa por herança política e entrou na fase das escolhas formais. O PP recusou apoio presidencial e retirou Tereza Cristina da composição imaginada pelo PL; Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram oficializadas para as duas vagas do Distrito Federal no Senado; e a campanha de Flávio Bolsonaro repetiu, em outra convenção, o uso de imagens e voz do ex-presidente sob questionamento judicial. A semana importa porque convenções, decisões partidárias e representações eleitorais converteram hipóteses em compromissos que agora produzem efeitos mensuráveis.
O quadro não aponta numa única direção. Flávio encurtou a distância para Lula em uma nova pesquisa BTG/Nexus, mas chegou aos últimos dias das convenções sem vice e sem o partido que poderia oferecer à chapa uma ponte nacional com o centro. Ao mesmo tempo, aliados passaram a tratar a eleição do Senado como caminho para anistia, impeachment de ministros do Supremo e reversão da situação de Jair Bolsonaro. São fatos distintos, ligados por uma mesma opção: substituir uma coalizão presidencial ampla por mobilização eleitoral concentrada no conflito com as instituições.
A neutralidade do PP fecha uma porta nacional
Na sexta-feira, 31 de julho, o Progressistas anunciou que não realizaria convenção nacional e permaneceria neutro na disputa pela Presidência. A nota partidária afirmou que a decisão foi tomada por maioria após consulta aos diretórios estaduais e comunicada a Tereza Cristina. O movimento afastou a senadora da vaga de vice de Flávio Bolsonaro, embora ela tivesse conversado com o candidato do PL. Até a manhã de 3 de agosto, Flávio continuava sem companheiro ou companheira de chapa, a dois dias do encerramento das convenções e doze dias antes do prazo de registro no TSE.
A neutralidade nacional não significou rompimento nos estados. No sábado, o Republicanos oficializou Tarcísio de Freitas para a reeleição em São Paulo, com Felício Ramuth, do MDB, como vice. A coligação estadual inclui PL e PP, entre outras siglas, e Flávio esteve no evento. Essa combinação mostra o limite preciso da aliança disponível: lideranças do campo conservador aceitam dividir palanques e preservar arranjos locais, mas o PP não transferiu essa cooperação para a chapa presidencial. Presença no palco, portanto, não equivaleu a adesão nacional.
Análise: a novidade não é mais a existência de dificuldade para formar alianças, registrada nas semanas anteriores, e sim a decisão que encerrou a negociação mais visível. O veto partidário a Tereza Cristina estreitou as opções de Flávio quando o calendário já não permite longas tratativas. Uma escolha de última hora ainda pode preencher a vaga, mas terá menos tempo para demonstrar que acrescenta base social, estrutura regional ou credibilidade política à candidatura.
Michelle e Bia Kicis transformam o Senado em frente de confronto
No Distrito Federal, o PL oficializou Michelle Bolsonaro e Bia Kicis como candidatas ao Senado na convenção de domingo. Michelle não compareceu porque estava hospitalizada para tratar crises de enxaqueca e enviou uma carta, lida por seu irmão, Diego Torres, anunciado como primeiro suplente. O fato novo é a passagem da especulação para uma chapa definida: a ex-primeira-dama, que até sexta-feira dizia discutir a decisão com Jair Bolsonaro, ocupa uma das duas vagas em disputa e preserva uma plataforma eleitoral própria dentro do partido.
Bia Kicis expôs no mesmo encontro a finalidade política pretendida para uma bancada conservadora ampliada. Segundo a parlamentar, o grupo buscará, a partir de 2027, o impeachment de ministros do STF que considere em desacordo com a Constituição, anistia para condenados pelo 8 de Janeiro e a libertação de Jair Bolsonaro. Trata-se de uma promessa de campanha atribuída à candidata, não de uma medida aprovada nem de resultado juridicamente assegurado. Pedidos de impeachment dependem da tramitação no Senado; anistia depende do Congresso; e a situação de Bolsonaro permanece sujeita às decisões judiciais aplicáveis.
A composição Michelle–Kicis conecta duas estratégias. A primeira procura transformar a popularidade da ex-primeira-dama e sua rede no PL Mulher em votos no Distrito Federal. A segunda oferece à base bolsonarista um objetivo institucional explícito para a eleição legislativa. Ao deslocar parte da campanha para a composição do Senado, o partido cria uma via paralela à candidatura presidencial de Flávio: mesmo que a corrida ao Planalto enfrente limites de coalizão, o confronto com o Supremo pode continuar organizando candidaturas estaduais.
Vídeos sintéticos abrem uma disputa de regra e precedente
O uso da imagem de Jair Bolsonaro entrou no centro da Justiça Eleitoral. Uma ação do PT questiona o vídeo criado por inteligência artificial e exibido na convenção nacional do PL para simular uma mensagem de apoio a Flávio. A norma do TSE permite recursos de IA com identificação clara, mas também veda conteúdo sintético que crie, substitua ou altere imagem ou voz para favorecer ou prejudicar candidatura. Segundo reportagem sobre o caso, Kassio Nunes Marques sinalizou não enxergar ilícito, enquanto outros integrantes defendem que o plenário esclareça se a clonagem basta para caracterizar irregularidade ou se é necessário provar intenção de enganar e dano eleitoral.
Há um antecedente relevante. Em março, o tribunal condenou por unanimidade vídeos que simulavam Barack Obama, Taylor Swift, Tom Cruise e Cristiano Ronaldo apoiando um candidato nas eleições municipais de 2024; o caráter evidentemente fictício não afastou a infração. Alexandre de Moraes citou esse precedente ao pedir explicações sobre o material usado pelo PL. A representação atual pode resultar em remoção do vídeo e multa, sem consequência automática para o registro de Flávio. Eventuais sanções mais graves exigiriam outra ação e apuração própria.
Antes de o primeiro caso ser resolvido, a convenção do PL em Santa Catarina exibiu nova peça com imagens do ex-presidente e narração em primeira pessoa, com voz semelhante à dele. O ICL registrou que não havia confirmação sobre a autenticidade do áudio ou sua produção por IA. Essa incerteza precisa ser preservada: é confirmado que o vídeo foi exibido; a origem sintética da voz permanece sem comprovação pública na reportagem. O episódio, porém, amplia o problema prático para o TSE, porque a campanha voltou a mobilizar a presença virtual de Jair Bolsonaro poucos dias depois de a defesa informar que ele não autorizara o material da convenção nacional.
A aceitação das urnas veio acompanhada de condição política
Em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, Flávio Bolsonaro declarou que aceitará o resultado da eleição, mas vinculou sua confiança a um TSE que chamou de diferente e imparcial sob a presidência de Nunes Marques. O candidato admitiu ter errado ao associar as urnas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic, afirmação usada anteriormente para alimentar suspeitas sobre o sistema. Apesar da admissão, voltou a pedir mais segurança e transparência sem indicar uma vulnerabilidade técnica concreta.
O fato confirmado é a declaração de Flávio; a insinuação de ilegitimidade sobre 2022 continua sendo uma alegação política sem prova apresentada na entrevista. A ressalva importa porque permite duas mensagens simultâneas: compromisso formal com as regras de 2026 e manutenção da desconfiança que mobiliza sua base. A convergência entre essa fala, a disputa sobre vídeos sintéticos e a promessa de Bia Kicis para o Senado põe a composição dos tribunais no centro da campanha, não apenas como árbitro eleitoral, mas como tema de propaganda.
A pesquisa aperta o placar e revela eleitorados opostos
A rodada BTG/Nexus divulgada em 3 de agosto registrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno. Na semana anterior, o placar era 42% a 33%; a diferença caiu de nove para quatro pontos. Em eventual segundo turno, Lula marcou 46% e Flávio, 45%, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O instituto ouviu 2.002 eleitores entre 31 de julho e 2 de agosto, com 95% de confiança e registro BR-02874/2026 no TSE.
Os recortes mostram que o empate agregado reúne grupos muito diferentes. Lula alcançou 56% contra 31% entre eleitores de 16 a 24 anos e 54% contra 37% entre as mulheres. Flávio liderou entre homens, por 53% a 37%, e nas faixas de 25 a 40 e de 41 a 59 anos. Entre os que não se identificam nem com antilulismo nem com antibolsonarismo, Lula apareceu com 37% e Flávio com 30%. A própria pesquisa não explica as causas dessas preferências; atribuí-las a uma pauta específica iria além do que foi medido.
Outro levantamento captou um custo externo para a família. A pesquisa Atlas/Bloomberg, feita com 5.021 eleitores de 22 a 27 de julho, apontou que 45,4% atribuíam à família Bolsonaro a principal responsabilidade pelas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, ante 41,5% que responsabilizavam o governo Lula. A margem de erro informada foi de um ponto, e o registro no TSE é BR-08602/2026. O resultado mede percepção pública, não prova uma cadeia causal, mas mostra que a aproximação do clã com o governo norte-americano também pode gerar desgaste interno.
Uma nova narrativa militar entra no calendário
O anúncio do livro Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista, do tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, acrescentou um documento futuro à discussão sobre a tentativa de ruptura após a eleição de 2022. Prevista para setembro, a obra promete relatar reuniões de análise de conjuntura no Ministério da Defesa, pressões nos quartéis e o afastamento do general Laerte Santos de encontros durante a crise. Baptista Junior foi comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro e afirma ter se oposto a qualquer quebra da ordem constitucional.
Por enquanto, estão confirmados o anúncio, a autoria e os trechos descritos pela imprensa. O relato constitui a versão do ex-comandante e não substitui prova judicial nem permite antecipar o conteúdo integral do livro. Seu lançamento às vésperas da eleição, contudo, tende a recolocar a conduta de Jair Bolsonaro e das cúpulas militares no debate justamente quando Flávio tenta apresentar sua candidatura como protesto contra o tratamento judicial dado ao pai.
Próximas semanas
Projeção: o primeiro teste é imediato. Até 5 de agosto, o PL terá de encerrar a convenção com uma definição para a vice; até 15 de agosto, registrar a chapa. A escolha mostrará se Flávio encontrou uma ponte partidária ou aceitou uma solução restrita ao próprio campo. No Senado, a campanha de Michelle e Bia Kicis deve tornar anistia e impeachment de ministros temas recorrentes, mas a tradução dessas promessas em poder real dependerá do conjunto das cadeiras eleitas, não apenas do resultado no Distrito Federal.
No TSE, a resposta ao vídeo sintético terá alcance maior que uma peça de campanha. Uma decisão estreita pode resolver apenas a publicação já contestada; uma tese de plenário poderá estabelecer parâmetros para todo o uso de imagem e voz clonadas em 2026. A pesquisa BTG/Nexus dá a Flávio impulso numérico, mas também identifica sua fragilidade entre mulheres, jovens e parte dos não polarizados. Convenção, regulação da IA e reação desses grupos serão os indicadores mais concretos para saber se a aproximação no placar se sustenta.
Fontes consultadas
- PP decide ficar neutro na eleição presidencial — Agência Brasil
- Flávio Bolsonaro e Zema seguem sem vices a 3 dias do fim do prazo — Diário do Centro do Mundo
- Republicanos lança candidatura de Tarcísio ao governo de São Paulo — Agência Brasil
- PL oficializa Michelle Bolsonaro e Bia Kicis como candidatas ao Senado pelo DF — Brasil de Fato
- Bia Kicis promete ofensiva por impeachment de ministros do STF no Senado — Diário do Centro do Mundo
- Vídeo com IA de Bolsonaro em convenção de Flávio divide ministros do TSE — Diário do Centro do Mundo
- Convenção do PL com Flávio Bolsonaro em SC tem vídeo com voz semelhante à de Jair — ICL Notícias
- Flávio Bolsonaro condiciona aceitação do resultado eleitoral a TSE diferente — Revista Fórum
- Os principais números da corrida presidencial de 2026, segundo a nova pesquisa BTG — Revista Fórum
- Família Bolsonaro é mais citada que governo Lula por tarifas dos EUA, diz Atlas/Bloomberg — Diário do Centro do Mundo
- Ex-comandante da Aeronáutica lança livro sobre tentativa de golpe de Bolsonaro e pressão nos quartéis — Diário do Centro do Mundo